OS JESUÍTAS E A EDUCAÇÃO NO PERÍODO COLONIAL

O papel dos jesuítas na história da educação no Brasil.

Os portugueses quando chegaram ao Novo Mundo trouxeram um padrão de educação próprio da Europa, no entanto encontraram uma educação, que se propagava aqui entre as populações indígenas, que não tinha marcas repressivas como do modelo educacional europeu. No Brasil encontraram cerca de 5 milhões de nativos   divididos em tribos de acordo com o tronco lingüístico.
Com o descobrimento, os índios brasileiros ficaram à mercê de vários outros interesses como   por exemplo: as urbes ansiavam integrá-los a tecnologia colonizadora; os jesuítas, por sua vez em um trabalho missionário , ambicionavam converter os indígenas ao cristianismo,   estima aos europeus e os colonos estavam   preocupados em utilizá-los como escravos. Esses padres tinham planos, conforme Cotrin (1996, p.101) de divulgar a religião católica em nossa terra. Consideravam-se “soldados da religião”, com a missão de conquistar as almas dos índios e dos colonos para o cristianismo católico.
Os jesuítas então resolveram separar os índios dos colonizadores. É importante salientar que estes jesuítas foram os primeiros mestres do Brasil, para tal fundaram as missões no interior do território. Os indígenas, além de passarem pela metodologia de catequização, também eram norteados ao trabalho agrícola, que   garantiam aos catequizadores uma de suas fontes de renda. A relação com o homem branco fez com que muitas tribos submergissem a sua identidade cultural. Esse arrolamento pode ser observado desde a chegada dos jesuítas ao território brasileiro. Sabe-se segundo Martins (2009), que a educação formal no Brasil inicia-se apenas em 1549, com os jesuítas que foram os primeiros educadores do período colonial, atuando até 1579. Essa educação servia especialmente para a aculturação e catequização dos índios e negros e a instrução dos descendentes dos colonizadores.
É importante salientar que os padres chegaram juntamente com o primeiro governador-geral, Tomé de Souza e comandados pelo padre Manuel da Nóbrega, e edificaram a primeira escola elementar brasileira, em Salvador, tendo como mestre o jovem Irmão Vicente Rodrigues. O Irmão Vicente tornou-se o primeiro professor nos moldes europeus. Junto com o grupo veio também o mais atuante de todos os missionários o padre José de Anchieta que se tornou mestre-escola do Colégio de Piratininga (São Paulo) onde foi missionário, além de Rio de Janeiro e Espírito Santo; Provincial da Companhia de Jesus de 1579 a 1586 e reitor do Colégio do Espírito Santo.
A Companhia de Jesus deveria honrar um contrato no qual “seus missionários não estavam a serviço da Igreja, mas a serviço da salvação dos indígenas, objetivo tanto do estado, como da Igreja e até mesmo da Companhia de Jesus . Sua ação deveria se fazer dentro dos quadros institucionais e da esfera jurídica da sociedade global”. (Kern, 1982, p.91). Uma vez cumprida esta função, a atividade missionária deveria cessar, sendo trocada por uma atuação paroquial.  Os jesuítas foram, segundo Ferreira (1984) os primeiros mestres do Brasil e por durante 30 anos foram os únicos educadores da Colônia, estabelecendo seus colégios em diversos pontos do litoral e do interior. A partir de 1580, chegaram padres de outras congregações, porém a maior parte do ensino dessa época continuou sob a responsabilidade dos jesuítas. Estes se dedicaram a pregar a fé católica e ao trabalho educativo. Entenderam que não seria possível converter os índios à essa fé sem que soubessem ler e escrever. Da Bahia a obra jesuítica se alargou para o sul e em 1570 já era composta por cinco escolas de instrução elementar: Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga, e três colégios: Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. Todas as escolas jesuíticas eram regulamentadas por um documento escrito por Inácio de Loiola, chamado de Ratio Studiorum , que buscava instruir rapidamente todo jesuíta docente sobre a natureza, a extensão e as obrigações do seu cargo.
Os loyolistas não se limitaram somente ao ensino das primeiras letras; além do curso elementar eles mantinham os cursos de Letras e Filosofia.   As pessoas que tinham posses e desejavam seguir as profissões liberais desejavam estudar na Europa, na Universidade de Coimbra, em Portugal, a mais famosa no campo das ciências jurídicas e teológicas existentes até nossos dias. Por muito tempo os jesuítas permaneceram como mestres da educação brasileira e usaram a educação e a evangelização, como projeto de integração colonial.  Bronzatti (2000, p.52) destaca que a educação proporcionada aos indígenas, pelos frades que chegaram à Indo-América, soma-se com a fundação de colégios e escolas onde, além do ensino das novas crenças, ensinavam outras matérias e procuravam também desenvolver suas aptidões artísticas na música, canto e ampliar suas técnicas pictóricas bem como gravar em seu espírito, um modo de comportamento de acordo com a civilização ocidental.
Estes missionários não determinaram somente a moral, os costumes e a religiosidade, apresentaram também métodos pedagógicos considerados muito bem estruturados. Esses métodos dominantes em relação a vida educacional no Brasil colônia, perduraram por cerca de dois séculos, no qual   se ocuparam da propagação da cultura nos moldes europeus, até que em 1759, os jesuítas foram expulsos de todas as colônias portuguesas por decisão do Marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal.   No momento em que foram expurgados os jesuítas tinham 25 residências, 36 missões, 17 colégios, seminários de grande porte, além de seminários menores e escolas de primeiras letras instaladas em todas as cidades onde havia casas da Companhia de Jesus. A educação brasileira, com isso, vivenciou uma grande ruptura histórica num processo já implantado e consolidado como modelo educacional.

 

A evangelização e a educação missioneira no Rio Grande do Sul

Evangelizar e educar os indígenas foram os objetivos primordiais das missões religiosas, dentro do espírito das cruzadas, que imperava em Portugal, instrumentado para a terra nova. Entre as diversas injustiças que ocorreram com os indígenas foi de que apenas sobreviveram aqueles que se submeteram as reduções, que eram conhecidas como Missões. As missões no Rio Grande do Sul, chamada de Sete Povos , surgiram por um empenho da Companhia de Jesus, em um trabalho de catequese de forma árdua, paciente e abnegada no início das reduções. Os jesuítas não fundaram aqui escolas e residências, a instrução se deu mais tarde.
A educação era uma das formas mais   efientes de modificar a forma tradicional de viver dos Guaranis. A educação era muita rigorosa e iniciava aos seis ou sete anos. A primeira hora da manhã, as crianças eram divididas em três grupos: as que aprendiam a ler e escrever e as que aprendiam algum trabalho, que era realizado de acordo com a sua idade. O Ministério da Cultura/ SPHAN, em seu catálago imformativo de 1990 destaca que:
A escola destinada a ler, escrever e contar era somente par aqueles considerados capazes. Para as oficinas de artes e ofícios eram enviadas as crianças que tinham alguma habilidade artística. Lá foram formados carpinteiros, tecelões e ferreiros. Esta “ jornada educativa” terminava pela tarde. Com um toque de sino todos se reuniam na igreja para a catequese: rezavam o rosário, comiam a merenda e voltavam pra casa. As crianças eram orientadas para que comentassem com seus pais tudo que haviam aprendido.
Segundo Trevisan (1978, p.24), aqui só havia campo, lutas incessantes, ausência de inseminação cultural. Resultou disso uma província destituída de bases quanto à sua formação intelectual e artística.   O objetivo principal era além da pregação do evangelho, o cultivo da erva-mate, do trigo, a extração do couro, o ensino da música, da escultura, do canto barroco europeu chegando a ter nas Missões um coral com cerca de quarenta componentes. Em relação às construções, os jesuítas eram encarregados dos projetos e os indígenas da mão de obra.  Porém, aos olhos dos missionários jesuítas, o indígena só seria um homem completo se fosse convertido, e essa era uma condição essencial para a liberação da escravidão. Para os missionários a ação religiosa baseada nos meios materiais demonstrava que, segundo Bruxel (1959, p.182) “o pensamento religioso não somente foi excluído, como constituía o móvel mais forte para aceitar a administração temporal e impor uma administração mais ou menos comunitária”. Observa-se que a ação ampliada pelos missionários foi imposta e os indígenas não optaram livremente pelos valores da sociedade européia, tanto no que se refere às organizações econômicas, religiosas como ações educativas.
A implantação das reduções oportunizou uma ação sobre as crianças índias, impondo-lhes novas atitudes e novos valores, além de recrutar os adultos para assumir papéis políticos da nova organização. Os pequenos índios, conhecidos como curumins, deviam aprender desde pequenos e de forma prática e se acostumar a observar o que os adultos faziam para irem treinando desde cedo. Quando o pai se dirigia para caçar, levava o indiozinho junto para este aprender essa lida. Portanto a educação indígena é bem prática e vinculada à realidade da vida da tribo. Quando atingia os 13 os 14 anos, o jovem passava por vários testes e participava de uma cerimônia para ingressar na vida adulta.
  Para exercer seu desígnio os catequizadores empregavam táticas como ir à aldeias com “meninos cantores, para convertê-los através da novidade da música barroca que sensibilizava o ouvido do índio que convertido servia de intermediário na conversão de outros fiéis”(FLORES, 1997, p.99). A evangelização se dava de diversas formas, da maneira de tocar dos sinos até o catecismo diário, do entalhe á escultura, dos afazeres domésticos às tarefas dedicadas à pintura ou a construção. Kern (1982, p.100) enfatiza que os indígenas poderiam adquirir um comportamento racional e analítico, bem como uma experiência política que lhes possibilitasse ultrapassar o estágio de “costumes bárbaros e selvagens” e de “infidelidade” , à vida política como a concebiam os europeus na época. Essa evangelização tornou-se uma atuação significante, pois os indígenas tinham que freqüentar a catequese e serem batizados, caso contrário seriam destruídos. Os guaranis eram analisados e cogitados por seus colonizadores como seres afetuosos e ternos, e isso proporcionou um legado que é atualmente objeto de pesquisa tanto de antropólogos como de sociólogos. Dirigida pelos missionários foram realizadas ações evangelizadoras conseqüentemente também um processo de mudança nos guaranis. É importante salientar que essa ação era pacificadora, pois evitavam brigas entre as tribos.
Conforme Baioto e Quevedo (1997, p.34 apud Almeida, 2002, p.153). A vida nas missões era simples e ordenada pelos costumes religiosos e os costumes da comunidade. Os guarani – missioneiros   acordavam muito cedo, antes do nascer do sol, porém não para ir trabalhar, mas para beber o mate e conversar com a família após o café da manhã. Em seguida, todas as crianças eram convocadas para a frente da igreja onde faziam as primeiras orações e recebiam o catecismo ministrado pelos jesuítas. A missa matinal inaugurava o dia, todos participavam na grande catedral de São Miguel. Em seguida, as crianças eram direcionadas para as escolas e os adultos dividem as tarefas do dia nas oficinas, nas lavouras e no pastoreio do gado. Com o passar da manhã vinha o almoço comunitário, precedido de rezas orientadas pelos padres. À tarde todos voltavam ao trabalho até que, à tardinha, os sinos tocavam anunciando a oração diária do rosário que encerravam os trabalhos do dia. A partir   desta hora, todos ficavam livres pra os afazeres domésticos e tarefas particulares como à dedicação a escultura, à pintura, à música ou à simples leitura. Era também o momento dos treinos militares e esportivos. A noite chegava e as badaladas do sino da igreja anunciava a hora de se recolher a suas casas e descansar até a chegada de um novo dia. Trabalhavam em torno de seis horas diárias, divididas em dois turnos: 3h pela manhã e 3h pela tarde. Reservando os dias santos, sábados e domingos, para o descanso. O alicerce da comunidade era a família, geralmente nuclear.
Por isso, os padres faziam questão que todos casassem cedo, assim que atingissem a puberdade. Dessa forma a sociedade se multiplicava e o sonho missioneiro caminhava tranquilamente a passos largos.
Baseados nesses dados pode-se observar que foi pela arte guaranítica que englobava a música, canto, escultura, dança, teatro, pintura, que os jesuítas, através dessa pedagogia, aproximaram-se dos índios. Os religiosos usavam dessas técnicas para a evangelização. Além disso, o aprendizado da língua tornou-se mais fácil a comunicação entre missionários e indígenas. A preocupação dos evangelizadores era em relação à poligamia e aos casamentos cosanguíneos, na qual buscava concentrar os preceitos da Igreja, aos poucos com clareza, acreditando que poderiam facilitar a evangelização e a conversão, e então autentificar   a vida dos indígenas de acordo com os valores morais que pregavam. É importante salientar que a evangelização e a educação missioneira no Paraguai e nos Sete Povos, no Rio Grande do Sul, passaram a ser diferenciada e teve grande eficácia, pois os missionários não privilegiaram a educação no campo da leitura e da escrita como os franciscanos, mas buscavam ampliar os conhecimentos que os indígenas tinham em relação a agricultura, arte, ofícios, crenças e devoção ao catolicismo. Com essa atitude os missionários transmitiam aos evangelizados, uma atitude de instrução militar para que se defendessem dos colonizadores e evitassem a servidão.
Para o arqueólogo Arno Alvarez Kern ( 1982,p.118-119),  não se pode exigir que, em pleno século XVII, os jesuítas tivessem criado nas reduções-doutrinas um sistema educacional intensivo e extensivo, como o que existe em algumas nações atuais. Com apenas dois   missionários em cada Missão seria materialmente impossível este tipo de realização, mesmo que ela existisse na época. As instituições educacionais dos jesuítas eram reputadas como as melhores, tanto nas colônias Hispãnicas como portuguesas. Entretanto, nem nas Missões dos jesuítas, nem nas de qualquer outra ordem religiosa, nunca foram instalados colégios. Estes eram um privilégio apenas de alguns centros maiores.

Ressalta-se que o principal objetivo da missão era o ensino da doutrina da fé católica, indispensáveis a salvação e à gerência do batismo, que conferia aos indígenas, a salvação da alma. Por fim, pode-se expor que o produto realizado pelos jesuítas nas Missões ressalta a importância da documentação que evangelizadores e evangelizados deixaram até nossos dias, oferecendo aos estudiosos esclarecimentos sobre o seu dia a dia e mostrando a civilização, que essa uma parceria foi bem sucedida deixando construiu um monumental acervo cultural que hoje é patrimônio histórico da humanidade.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nenhuma ação dos países europeus em outros continentes teve implicações tão expressivas como o trabalho efetivado pelos missionários da Companhia de Jesus em territórios americanos, principalmente os ocupados pelos índios Guaranis.   A complicada composição que incluía práticas artísticas, religiosas e sociais confirma as intensas informações que estes apóstolos tinham da realidade, sem constranger os apropriados senhores da região, que eram os indígenas das Missões.

A história que se desenvolveu nesse território foi, sem dúvida, marcada por relações complexas, onde o encontro de duas formas de ser tão diferentes, com os indígenas e os jesuítas europeus, constituiu uma forma de vida específica. Essas relações até hoje nos colocam questões a pensar.

 

 

Em 1605, os jesuítas já estavam estabelecidos em todo o litoral brasileiro, de Natal (1597), no Nordeste, a Embitiba (1605), na atual divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nesse período de expansão, além de contribuírem para a edificação das cidades de Salvador e Rio de Janeiro, fundaram por iniciativa própria a cidade de São Paulo, em Piratininga, no interior da capitania de São Vicente.

Em 1605, os jesuítas já estavam estabelecidos em todo o litoral brasileiro, de Natal (1597), no Nordeste, a Embitiba (1605), na atual divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nesse período de expansão, além de contribuírem para a edificação das cidades de Salvador e Rio de Janeiro, fundaram por iniciativa própria a cidade de São Paulo, em Piratininga, no interior da capitania de São Vicente.

 

REFERÊNCIAS:
-ALMEIDA, Heleuza Carrilho Tuka   et al. Arte Missioneira: escultura-expressão máxima da cultura de um povo. Revista de História. Editora   Centro Gráfico Unicruz. Cruz Alta, vol. nº 1- Dez 2000.
-BAIOTO, Rafael; QUEVEDO, Julio. São Miguel das Missões, Porto Alegre: Martins Livreiro, 1997.
– BRONZATTI, Maria de Fátima, Educação Missioneira: A continuidade de um trabalho evangelizador na América. Revista de História. Editora   Centro Gráfico Unicruz. Cruz Alta, vol. nº 1- Dez 2000.
-BRUXEL, Arnaldo. O sistema de propriedade das Reduções guaraníticas. Pesquisas, Porto Alegre, Instituto Anchietano, 1959.
-COTRIN, Gilberto. História e consciência do Brasil. São Paulo. Editora Saraiva, 1996.
-FERREIRA,Olavo Leonel. História do Brasil. São Paulo : Editora Ática, 1984.
-FLORES, Moacyr. Redução jesuítica dos Guaranis. Porto Alegre: PUCRS, 1997.
-KERN, Arno Alvarez. Missões: Uma utopia política. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1982.
-MARTINS, Josenei. Caderno de Estudos: Didática e Educação. Centro Universitário Leonardo da Vinci. Indaial. Ed. Grupo Uniasselvi, 2009.
-MINISTÉRIO DA CULTURA- SPHAN. Missões Uma história de 300 anos. Porto Alegre, 1990.
-TREVISAN, Armindo. A Escultura dos Sete Povos. Porto Alegre,   Editora Movimento, 1978.

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2 Comentários

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2 Respostas para “OS JESUÍTAS E A EDUCAÇÃO NO PERÍODO COLONIAL

  1. Fernando Jr.

    Ficou muito bom!

  2. Foi de grande proveito e extremamente esclarecedor,pude ampliar bastante o meu conhecimento a respeito do assunto.

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