Por uma Relação Trabalho-Educação Para Além do Capital

Texto construído por Dayane Mendes Soares Dias de Jesus, para a composição de nota na disciplina de Formação Integrada, do sexto período do curso de Licenciatura em História do IFG. Texto entregue a professora Jackeline Império.

 

 

 

Saviani (2007, p. 154) afirma que “a existência humana” não é uma dádiva da natureza, e sim é algo produzido através da transformação do ambiente natural em bens matérias e imateriais. Porém, como ninguém nasce sabendo “produzir sua própria existência”, está é uma atividade que se aprende – seja realizando várias tentativas até se chegar ao acerto ou seguindo orientações baseadas em experiências de outros homens. Portanto o trabalho, segundo Saviani, pode ser definido como uma atividade essencialmente humana e que, somada a educação, “coincide, então, com a origem do homem mesmo”.

Soares e Trindade (2008, p. 02) partem dos textos de Marx para afirmar que “em uma sociedade genérica, o trabalho possui uma dimensão ontológica, de criação da vida humana”. Isto porque a ausência de classes leva o homem a agir sobre a natureza segundo suas próprias necessidades já que ele será o proprietário do fruto de seu esforço. Nesta sociedade a divisão de tarefas guia-se por questões de parentesco, de gênero, de idade e até mesmo mitológicas; enquanto que o tempo do trabalho é orientado pela natureza e está vinculado a festas e rituais. É importante destacar que as técnicas de produção são repassadas de geração á geração – o que não significa a ausência de aperfeiçoamento afinal, como já foi dito, há uma constante troca de experiências. Dentro desta perspectiva, é possível associar o trabalho a arte, já que esta situação que permite o livre exercício da criatividade durante todo o processo de labor.

O constante aprimoramento das técnicas de produção gerou excedente – o que acabou provocando rachaduras na unidade social vigente – assim, o grupo passa a se dividir entre proprietários e não-proprietários. O modo como os processos de produção se organizam dentro das sociedades de classes culminou na separação entre educação e produção. Para pensar este processo Saviani toma como exemplo escravismo na antiguidade (tanto a grega como a romana) e a ordem feudal durante a Idade Média européia (sem distinguir nenhuma região). Isto porque nestas sociedades, guardadas as particularidades de cada uma, à elite tem a oportunidade de ocupar-se apenas com o trabalho intelectual já que vive à custa do esforço físico de outros grupos socais.

Com o advento da revolução industrial o trabalho se torna uma mercadoria que pode ser comprada ou vendida. Este processo acentua o apartamento entre produção e educação – e o trabalho intelectual é valorizado em detrimento do trabalho manual. Aqui o trabalho tem como objetivo, primeiro, a lucratividade do detentor dos modos de produção. Esta situação é alienante não só devido ao fato do trabalhador não ser o dono do produto de seu trabalho, mas também porque esta perspectiva nega, ao operário, qualquer manifestação criativa.

O capitalismo extrai toda historicidade dos conceitos de trabalho e educação, transformando-os em sinônimo de emprego e escola, respectivamente. Esta característica reforça a separação entre conhecimento e prática – a educação já não é parte do trabalho, mas o caminho para alcançar um emprego (PARO, 1999, p.1-8). A escola do capital se ocupa em transmitir uma série de conhecimentos técnicos, que preparam o discente para o mercado de trabalho, mas não estabelecem conexão com o cotidiano da comunidade (NEVES, 2009, p. 8876). Além disso, a escola se traveste de apolítica pra evitar debates que produzam críticas ao sistema e reproduz discursos valorativos conduzem a “internalização pelos indivíduos da legitimidade da posição que lhes foi atribuída na hierarquia social” (MÉSZÁROS, 2005, p. 38-44). Um grande exemplo disto são as aulas de história: muitos livros didáticos transmitem, de forma quase subliminar, mensagens que levam o futuro operário preferir se identificar com os interesses das elites – rotulam os ancestrais do proletariado como sendo ‘vadios’, ‘criminosos’, ‘pervertidos’ e ‘intelectualmente inferiores’.

Portanto, a escola do capital assume um caráter duplamente alienador já que forma funcionários capacitados para ocupar determinados cargos; mas alheios á lógica de funcionamento da tecnologia que utilizam diariamente, aos bens que produzem e ao sentimento de classe. Isto porque a escola, da forma que foi institucionalizada, não tem a função de promover a emancipação do aluno, ao contrário, forma força de trabalho para o capital – os ricos para postos de comandos e os pobres, oriundos de escolas publicas, para subempregos (LIBANEO, 2012, p. 28).

As teses de todos os autores citados ao longo deste texto coadunam para a seguinte conclusão: a universalização da educação e do trabalho – como atividade humana autorrealizadora – é uma premissa fundamental para a o fim da autoalienação do trabalho, pois pressupõe a igualdade (substancial e não apenas formal e superficial) de todos os seres humanos. Saviani e Mészáros apontam uma abertura para o desenvolvimento e adoção de pedagogias que permitam uma “maior articulação entre trabalho intelectual e instrumental, unificando as capacidades de pensar e fazer” dentro do processo de universalização da escola – que é uma exigência posta pelo próprio desenvolvimento do processo produtivo (SOARES, TRINDADE, 2008, p.11).

Assim sendo, afirmamos que os processos educativos e a organização social matem uma relação dinâmica e, portanto o resgate do trabalho como meio para o bem viver (em detrimento ao trabalho/emprego como fim) só é possível através de adoção de práticas educativas verdadeiramente emancipatórias. Para tal, é preciso empoderar os professores capacitando-os para identificar, enfrentar e alterar qualquer sistema de internalização da lógica do capital, em suas dimensões visíveis e ocultas através da criação. Só assim teremos uma escola realmente unitária – plenamente capazes de integrar ciência, cultura e trabalho em um único projeto pedagógico.

 

Referencias Bibliográficas

LIBANEO, J. C. O dualismo perverso da escola pública brasileira: escola do conhecimento para os ricos, escola do
acolhimento social para os pobres
. Educ. Pesqui. 2012, vol.38, n.1, pp. 13-28.

MÉSZÁROS, István. A Educação para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2005.

NEVES, Sandra Garcia. A produção omnilateral do homem na perspectiva Marxista: a educação e o trabalho. IX Congresso Nacional de Educação – EDUCERE, PUC-PR, 2009.

PARO, Vitor Henrique. Parem de preparar para o trabalho!!! Reflexões acerca dos efeitos do neoliberalismo sobre a gestão e o papel da escola básica. In: FERRETTI, C. J.; SILVA, J. dos R.; OLIVEIRA, M. R. N. S. (Org.). Trabalho, formação e currículo: para onde vai à escola. 1 ed. São Paulo: Xamã, 1999.

SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação, v. 12, n. 34, jan./abr., 2007.

SOARES, Solange Toldo; TRINDADE, Jussara das Graças. O trabalho como princípio educativo e sua dupla dimensão no capitalismo. In: VI Seminário do Trabalho, Marília-SP, 2008.

 

 

Uma Breve Revisão Bibliográfica Acerca dos Movimentos Emancipacionistas no Estado de Goiás

Texto construído por Dayane Mendes Soares Dias de Jesus, para composição de nota na disciplina de história de Goiás, do sexto período do curso de Licenciatura em História do IFG.

 

 

Martiniano Silva (2008) recorre ao historiador Luís Palacin para afirmar que todo arraial goiano tem a sombra de um quilombo e, por isso, o autor se preocupa em elaborar um mapeamento dos quilombos em Goiás. Para ele, não dá para pensar o negro como um ser coisificado, pois a existência do quilombo seria por si só uma forma de enfrentamento do regime escravista.

Mary Karash (1998) problematiza a questão da formação e a continuidade dos aquilombamentos em Goiás. Para tal, ela recorre a analise de diversos documentos  – dentre os quais destacamos os produzidos pelo Estado e os  registros de batismo. A autora concluiu que os quilombos goianos encontraram diversas possibilidades de sobrevivência, o que se pode notar através da vasta contribuição dos quilombos para a cultura e a economia goiana – perceptíveis a olho nu, inclusive, no cotidiano goiano contemporâneo. Assim, não é incorreto  associar a história da classe operaria, em Goiás, com á trajetória dos quilombolas goianos.

Thiago F. Sant’Anna (2008), ao comparar a bibliografia historiográfica e os documentos dos arquivos da província de Goiás, afirma que as relações goianas entre escravos e patrões não fugia as regras do resto do Brasil – o que acaba por rebatar a tese de distanciamento nos costumes entre a capitania de Goiás e as demais. Para ele, o baixo número de mulheres negras aquilombadas (quando comparado com o número de homens que habitavam os quilombos goianos) é fruto da realidade cotidiana do trabalho que era executado por essas mulheres. Estas personagens, geralmente, trabalhavam na casa grande ou em sua proximidade o que as colocava sob olhares bem mais atentos do que aqueles que vigiavam os escravos de lavoura – inclusive porque, no campo, os escravos tinham maior acesso a mata virgem e a ferramentas que facilitavam a fuga. Sant’Anna, ciente desta questão,  problematiza as possibilidades e limites de resistência das mulheres cativas em Goiás, analisando diversos registros acerca do dia-a-dia da vida nas propriedades de Goiás. Ele conclui que as mulheres cativas acabaram desenvolvendo diversas práticas de resistências-adaptativas em seu cotidiano.

Sant’Anna (2013), em OS ABOLICIONISMOS NA CIDADE DE GOIÁS: PLURALIDADES E SINGULARIDADES NOS ANOS 1880, pensa as particularidades do movimento abolicionista em Goiás  através das publicações  de jornais – A tribuna Livre, Goyas e o Publicador Goyano. Neste texto ele busca compreender como o jogo de interesses, dos diversos grupos sociais goianos, se revela no conceito de abolicionismo elaborado na capitania de Goiás. Para este autor a imprensa assumiu papel pedagógico, pois as publicações jornalisticas tinham caráter elucidativo e propagandista de uma, determinada, lógica abolicionista – que não é neutra. O autor conclui que os jornais, ao tornarem a luta pela abolição pública, expunham um projeto abolicionista totalmente elitista – lento e gradual. Este tipo de ‘abolição’ acabava por negligenciar as praticas abolicionistas que ocorriam fora das elites – considerando-as marginais e, em muitos casos,  desaprovando inclusive as fugas e as formações de aquilombamentos. Porém, como as teses anteriores mostram, as práticas abolicionistas não se restringiram as elites – muito embora ela negligencie o valor e, até mesmo criminalize, as práticas de resistência das populações negras.

Marta Victor Viera  (2013) compara diversos documentos, crônicas de viajantes, e historiográficos para problematizar a adesão das elites dirigentes goianas á independência do Brasil. Ela mostra que, apesar dos discursos associarem a província de Goiás ao atraso e a decadência, as elites goianas sempre estavam presentes nas disputas políticas nacionais e nunca deixaram de se posicionar (mesmo que com certo atraso) em relação aos acontecimentos da corte. Para ela, a posição pró-separatistas se dá porque estas elites viram, no divorcio entre Brasil e Portugal, a possibilidade de aumentarem sua influência  – através das possibilidades que a reestruturação burocrática certamente traria. Partindo deste argumento, a autora conclui que a ideia de atraso foi um discurso construído para legitimar a posição pró-independência assumido pelas elites goianas.

Portanto  em relação ao abolicionismo e aos movimentos emancipacionistas no estado, podemos  concluir que as elites dirigentes goianas interpretaram a ideologia liberal a sua forma – e a partir dela construíram discursos que tinham não tinham, pelo  como objetivo principal, promover debates sócio-filosóficos  e, sim, legitimarem seus interesses políticos.

Referências Bibliográficas:

 

SANT’ANNA, Thiago. ESCRAVAS EM AÇÃO: RESISTÊNCIAS E SOLIDARIEDADES ABOLICIONISTAS NA PROVÍNCIA DE GOIÁS – SÉCULO XIX. Em Tempo de Histórias , v. 12, p. 01-15, 2008.

SANT’ANNA, Thiago ; OS ABOLICIONISMOS NA CIDADE DE GOIÁS: PLURALIDADES E SINGULARIDADES NOS ANOS 1880. Élisée – Revista de Geografia da UEG , v. 2, p. 92-107, 2013.

SILVA, Martiniano J. Quilombos do Brasil Central: Violência e Resistência Escrava, 1719-1888. 2ed. Goiânia: Kelps, 2008.

VIEIRA, M. V.; Disputas políticas e crise de autoridade em Goiás: a adesão das elites dirigentes goianas à independência do Brasil (1821-1822). Revista Crítica Histórica , v. 8, p. 23-43, 2013.

Plano de Aula: A Política de Integração Econômica Regional Latino-americana, na década de 1990.

 

 

Plano de aula construído por Dayane Mendes Soares, para composição da nota do primeiro bimestre da disciplina de História Contemporânea III  do curso de Licenciatura Plena em História do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás – IFG,  entregue ao professor Valmir.

 

  1. Tema: Capitalismo Global em Apuros: A Política de Integração Econômica Regional Latino-americana, na década de 1990.

 

  1. Público alvo: Terceiro ano do Ensino Médio.

 

 

  1. Tempo estimado: Duas aulas – 90 minutos.

 

  1. Conceitos: Globalização, industrialização, desenvolvimento, integração econômica, divisão regional do trabalho.

 

 

  1. Categorias de Análise: Histórica econômica, história política e história do tempo presente.

 

  1. Objetivos
    • Objetivo Geral: Compreender o papel do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) para a economia dos países que o compõe.
    • Objetivos Específicos:
  2. Historicizar, política e ideologicamente, a década de 1990 no ocidente.
  3. Entender a formação de acordos regionais dentro do processo de globalização.
  4. Perceber como esse processo de integração corroborou para o acirramento das desigualdades socioespaciais na América latina.

 

  1. Descrição da aula:

No primeiro momento iremos contextualizar a década de 1990 como um período em que o capitalismo global funciona ‘a todo vapor’. O dólar, neste período, já havia se configurado como a moeda da globalização financeira e a vitória do neoliberalismo parecia incontestável. Salientar que, neste momento, o Brasil ocupa a posição de subdesenvolvido na divisão internacional do trabalho e a formação de uma econômica regional Latino-americana poderia aumentar não só o poder econômico, mas também, a influência geopolítica brasileira. (15 minutos).

No segundo momento ocorrerá a exibição do documentário sobre o MERCOSUL (2003), produzido e disponibilizado pela TV ESCOLA. Sinopse do documentário: A primeira cena é a assinatura do Tratado de Assunção que  em 1991, que instaurou o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) – objetivando integrar ainda mais as economias nacionais sul-americanas. O documentário destaca a posição do Brasil e da Argentina, no cenário regional, apresentando os demais países foram apresentados num contexto vulnerabilidade. Depois, ele destaca o teor dos regimes ditatoriais latino-americanos e as influências dele na politica do MERCOSUL.  (20 minutos).

Posteriormente, será realizada uma leitura, coletiva, do tópico que livro didático dedica ao debate do MERCOSUL. Na leitura iremos destacar  os que eles viveram ditaduras, no contexto analisado –  o Brasil entre 1964 e 1985, a Argentina entre 1966 e 1973, o Paraguai 1954 e 1989 e o Uruguai 1973 e 1985. Isto é fundamental, porque a partir daí poderemos problematizar o processo de industrialização vivido pelo Brasil e pela Argentina –   a compra de insumos tecnológicos, dos países desenvolvidos, representou um avanço ou reforçou a dependência, econômica e política?  (10 MINUTOS).

No terceiro momento haverá um debate acerca das contradições entre as propostas do MERCOSUL e a realidade da América Latina, baseado nas informações apresentadas no documentário e no livro. Todo o debate irá girar acercada das seguintes problemáticas: O MERCOSUL, de fato, funciona  como uma União Aduaneira? Quais são os problemas enfrentados por este bloco regional que dificultam uma integração mais completa? Quais as mudanças sociais, políticas e/ou econômicas que podemos atribuir a instalação do grupo? (20 minutos).

No quarto momento os alunos irão realizar a atividade avaliativa. (25 minutos).

 

  1. Atividade Avaliativa:

Elabore uma redação (no mínimo 24 linhas e no máximo 28 linhas) explicando qual foi a importância papel do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) para a economia dos países que o compõe este grupo?

 

  1. Recursos Didáticos:

Quadro negro, giz, aparelho de DVD, CD de DVD (disponível na videoteca da escola), televisão, livro didático.

 

  1. Referencias Bibliográficas:

AZEVEDO, Francisco Fransualdo de. A América Latina face à política de integração econômica regional no mundo subdesenvolvido. Scripta Nova. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1 de noviembre de 2012, vol. XVI, nº 418 (62). Disponivel em: <http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-418/sn-418-62.htm>. Acessado em 03 de julho de 2015.

FICHAMENTO: Era dos Extremos

Escrito por Cadu Xavier . Texto original disponível em: http://www.caduxavier.com.br/mackenzie/index.php?option=com_content&view=article&id=378:fichamento-era-dos-extremos&catid=76:contemporanea&Itemid=57

 

 

 

 

 

 

 

HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991; Tradução Marcos Santarrita; – São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 
O SÉCULO: VISTA AÉREA
Olhar panorâmico

 

 

 

Yehudi Menuhin (músico, Grã-Bretanha): Se eu tivesse de resumir o século XX, diria que despertou as maiores esperanças já concebidas pela humanidade e destruiu todas as ilusões e ideais.

I
II

(Pág. 15) Não sabemos o que virá a seguir, nem como será o seguinte milênio, embora possamos ter certeza de que ele terá sido moldado pelo Breve Século XX.
(22) Visto que este século nos ensinou e continuar a ensinar que os seres humanos podem aprender a viver nas condições mais brutalizadas e teoricamente intoleráveis, não é fácil apreender a extensão do regresso, por desgraça cada vez mais rápido, ao que nossos ancestrais no século XIX teriam chamado padrões de barbarismo.
(23) As “grandes potências” de 1914, todas europeias, haviam desaparecido, como a URSS, herdeira da Rússia czarista, ou sido reduzidas a um status regional ou provincial, com a possível exceção da Alemanha. O próprio esforço para criar uma “Comunidade Europeia” supranacional única e inventar um senso de identidade europeia a ela correspondente, substituindo as velhas lealdades a países e Estados históricos, demonstrava a profundidade desse declínio.
(24) A segunda transformação foi mais significativa. Entre 1914 e o início da década de 1990 o globo foi muito mais uma unidade operacional única, como não era e não poderia ter sido em 1914. Na verdade, para muitos propósitos, notadamente em questões econômicas, o globo é agora a unidade operacional básica, e unidades mais velhas como as “economias nacionais”, definidas pelas políticas de Estados territoriais, estão
reduzidas a complicações das atividades transnacionais. O estágio alcançado na década de 1990 na construção da “aldeia global” — expressão cunhada na década de 1960 (McLuhan, 1962) — não parecerá muito adiantado aos observadores de meados do século xxi, porém já havia transformado não apenas certas atividades econômicas e técnicas e as operações da ciência, como ainda importantes aspectos da vida privada, sobretudo devido à inimaginável aceleração das comunicações e dos transportes.
(25) Essa sociedade, formada por um conjunto de indivíduos egocentrados sem outra conexão entre si, em busca apenas da própria satisfação (o lucro, o prazer ou seja lá o que for), estava sempre implícita na teoria capitalista. Desde a Era da Revolução, observadores de todos os matizes ideológicos previram a conseqüente desintegração dos velhos laços sociais na prática e acompanharam seu desenvolvimento. E conhecido o eloqüente tributo do Manifesto Comunista ao papel revolucionário do capitalismo. (“A burguesia […] despedaçou impiedosamente os diversos laços feudais que ligavam o homem a seus ‘superiores naturais’, e não deixou nenhum outro nexo entre homem e homem além do puro interesse próprio.”) Mas não foi exatamente assim que a nova e revolucionária sociedade capitalista funcionou na prática.
(25) No fim deste século, pela primeira vez, tornou-se possível ver como pode ser um mundo em que o passado, inclusive o passado no presente, perdeu seu papel, em que os velhos mapas e cartas que guiavam os seres humanos pela vida individual e coletiva não mais representam a paisagem na qual nos movemos, o mar em que navegamos. Em que não sabemos aonde nos leva, ou mesmo aonde deve levar-nos, nossa viagem.
(25) E a essa situação que uma parte da humanidade já deve acomodar-se no final do século; no novo milénio, outras deverão fazê-lo. Porém então, quem sabe, já seja possível ver melhor para onde vai a humanidade. Olhando para trás, vemos a estrada que nos trouxe até aqui; foi o que tentei fazer neste livro. Não sabemos o que moldará o futuro, embora eu não tenha resistido à tentação de refletir sobre parte desses problemas, na medida em que eles surgem dos escombros do período que acaba de chegar ao fim. Esperemos que seja um mundo melhor, mais justo e mais viável. O velho
século não acabou bem.

PARTE III – O desmoronamento
14 – AS DÉCADAS DE CRISE

I

(396) Quanto à pobreza e miséria, na década de 1980 muitos dos países mais ricos e desenvolvidos se viram outra vez acostumando-se com a visão diária de mendigos nas ruas, e mesmo com o espetáculo mais chocante de desabrigados protegendo-se em vãos de portas e caixas de papelão, quando não eram recolhidos pela polícia. Em qualquer noite de 1993 em Nova York, 23 mil homens e mulheres dormiam na rua ou em abrigos públicos…
(398) … o fato fundamental da Décadas de Crise não é que o capitalismo não funcionava tão bem quanto na Era de Ouro, mas que suas operações se haviam tornado incontroláveis. Ninguém sabia o que fazer em relação aos caprichos da economia mundial, nem possuía instrumentos para administrá-la. O grande instrumento para fazer isso na Era de Ouro, a política de governo, coordenada nacional ou internacionalmente, não funcionava mais. As Décadas de Crise foram a era em que os Estados nacionais perderam seus poderes econômicos.
(402) A melhor maneira de ilustrar tais conseqüências é através do trabalho e do desemprego. A tendência geral da industrialização foi substituir a capacidade humana pela capacidade das máquinas, o trabalho humano por forças mecânicas, jogando com isso pessoas para fora dos empregos Supunha-se, corretamente, que vasto crescimento da economia tornado possível por essa constante revolução industrial criaria automaticamente mais do que suficientes novos empregos em substituição aos velhos perdidos […]. Os empregos perdidos nos maus tempos não retornariam quando os tempos melhoravam: não voltariam jamais.
(403) O desempenho e a produtividade da maquinaria podiam ser elevados constantemente, e para fins práticos interminavelmente, pelo progresso tecnológico, e seu custo, dramaticamente reduzido. O mesmo não se dava com o desempenho dos seres humanos, como demonstra uma comparação das melhoras da velocidade do transporte aéreo com recorde dos cem metros. De qualquer modo, o custo do trabalho humano não pode, por nenhum período de tempo, ser reduzido abaixo do custo necessário para manter seres humanos vivos num nível mínimo aceitável como tal em sua sociedade, ou na verdade em qualquer nível. Os seres humanos não foram eficientemente projetados para um sistema capitalista de produção. Quanto mais alta a tecnologia, mais caro o componente humano de produção comparado com o mecânico.
(404) [êxodo rural para trabalhar nas cidades sem preparação]
(405) Nos países pobres, entravam na grande e obscura economia “informal” ou “paralela”, em que homens, mulheres e crianças viviam, ninguém sabe exatamente como, por meio de uma combinação de pequenos empregos, serviços, expedientes, compra, venda e roubo.

II
III


(410)
 Em alguns aspectos, Oriente e Ocidente haviam evoluído na mesma direção. Em ambos, as famílias se tornaram menores, os casamentos se desfaziam mais livremente que em outras partes, as populações dos Estados – ou, pelo menos, de suas regiões mais urbanizadas e industrializadas – mal se reproduziam, quando o faziam. […]

IV
V

(414) [nacionalismo separatista, uma combinação entre três fenômenos: resistência dos Estado-nações existentes à sua demolição; egoísmo coletivo da riqueza; resposta à “revolução cultural”]
(418) A tragédia dessa política de identidade exclusionária, quisesse ela ou não estabelecer Estados independentes, era que não podia dar certo de jeito nenhum. Só podia fazer de conta…

15 – TERCEIRO MUNDO E REVOLUÇÃO
I
II


(425)
 Uma “cronologia de grande guerras de guerrilha” compilava em meados da década de 1970 relacionava 32 delas depois do fim da Segunda Guerra Mundial.
(427) A revolução cubana era tudo: romance, heroísmo nas montanhas, ex-líderes estudantis…
(429) As Forças Armadas tomaram o poder no Brasil em 1964 contra um inimigo bastante semelhante: os herdeiros do grande líder populista Getúlio Vargas (1883-1954), que se deslocavam para a esquerda no início da década de 1960 e ofereciam democratização, reforma agrária e ceticismo em relação à política americana. As pequenas tentativas de guerrilha de fins da década, que proporcionaram uma desculpa para a implacável repressão do regime, jamais representaram um verdadeiro desafio a ele; mas deve-se dizer após o início da década de 1970 o regime começou a relaxar e devolveu o país a um governo civil em 1985.
(430) Contudo, não surpreende que, por meio de suas guerrilhas, rurais e urbanas, o Terceiro Mundo tenha inspirado o crescente número de jovens rebeldes e revolucionários, ou simplesmente dissidentes culturais do Primeiro Mundo.

III

(431)
 Nos florescentes países do capitalismo industrial, ninguém mais levava a sério a clássica perspectiva de revolução social por insurreição e ação de massa. E no entanto, no auge mesmo da prosperidade Ocidental, no núcleo mesmo da sociedade capitalista, os governos de repente, inesperadamente e, à primeira vista, inexplicavelmente se viram diante de uma coisa que não apenas parecia a velha revolução, mas também revelava a fraqueza de regimes aparentemente firmes.
(432) A rebelião dos estudantes ocidentais foi mais uma revolução cultural, uma rejeição de tudo o que, na sociedade, representasse os valores paternos de “classe média”…
(433) Era um ambiente idealmente adequado para escritores de histórias de espionagem e terror, para os quais a década de 1970 foi uma era de ouro. Foi também a era mais sombria de tortura e contraterror na história do Ocidente.
(436) O fim do movimento comunista internacional fim também o fim de qualquer tipo de internacionalismo socialista ou social-revolucionário…

IV
V

(443) As revoluções de fim do século XX, assim, tiveram duas características: uma foi a atrofia da tradição de revolução estabelecida; outra, a revivescência das massas…
(444) Essas ações de massa, por si mesmas não derrubaram, nem poderiam derrubar regimes. Podiam até mesmo ser detidas por coerção e armas, como foi a mobilização em massa pela democracia na China, 1989, com o massacre da praça Tiananmen em Pequim. […] O que essa mobilização das massas conseguia era demonstrar a perda de legitimidade de um regime. […] Claro que só um simples ruídos dos pés dos cidadãos em massa não podia fazer revoluções. Não eram exércitos, mas multidões, ou agregados estatísticos de indivíduos. Precisavam de líderes, estruturas ou estratégias políticas para ser eficaz.
(445) Contudo, há outro motivo para a revivescência das massas: a urbanização do globo, sobretudo no Terceiro Mundo.
(446) O mundo do terceiro milênio portanto quase certamente continuará a ser de política violenta e mudanças políticas violentas. A única coisa incerta nelas é aonde irão levar.

16 – FIM DO SOCIALISMO
I

(452) Ao contrário do comunismo russo, o chinês praticamente não tinha relação direta com o Marx e o marxismo.
(453) […] Eram completamente comunistas, porque não apenas todos os aspectos da vida camponesa haviam sido coletivizados, inclusive a familiar – as creches e refeitórios comunais libertando as mulheres das tarefas domésticas e do cuidado das crianças e mandando-as, arregimentadas, para os campos –, mas também o fornecimento de seis serviços básicos iria substituir salário e a renda em dinheiro. Esses seis serviços eram alimentação, assistência médica, educação, funerais, corte de cabelo e cinema. Visivelmente não deu certo.

II

(457) Na verdade, na década de 1970 era claro que não só o crescimento econômico estava ficando para trás, mas mesmo os indicadores sociais básicos, como o da mortalidade, estavam deixando de melhorar. Isso minou a confiança no socialismo talvez mais que qualquer outra coisa, pois sua capacidade de melhorar a vida da gente comum através de maior justiça social não dependia basicamente de sua capacidade de gerar maior riqueza.
(459) A crise do petróleo teve duas conseqüências aparentemente felizes. Para os produtores de petróleo, dos quais a URSS por acaso era um dos mais importantes, transformou o líquido negro em ouro. Era como um bilhete premiado garantido de loteria toda semana. […] A outra conseqüência aparentemente feliz da crise do petróleo foi a inundação de dólares que esguichavam dos multibilionários Estados da OPEP, muitas vezes com populações minúsculas, e que agora distribuídos pelo sistema bancário internacional sob a forma de empréstimos a quem quisesse. Poucos países em desenvolvimento resistiram a tentação de aceitar os milhões assim carreados para seus bolsos, e que iriam provocar a crise da dívida mundial de inícios da década de 1980.

III

(464) … os EUA preferiram ou escolheram ver a jogada soviética como uma grande ofensiva militar dirigida contra o “mundo livre”.

IV
V

(479) Assim, a destruição da URSS conseguiu a reversão de quase quatrocentos anos de história russa, e a volta do país à era de antes de Paulo, o Grande (1672-1725).

VI

(480) [conclusão]

17 – MORRE A VANGUARDA
As artes após 1950

I

(484) A tecnologia revolucionou as artes de modo mais óbvio, tornando-as onipresentes. O rádio já levava os sons – palavras e música – à maioria das casas no mundo desenvolvido, e continuava sua penetração no mundo atrasado. Mas o que o tornou universal foi o transistor […]. A televisão jamais se tornou tão prontamente portátil quanto o rádio – ou pelo menos perdeu muito mais, comparativamente, com a redução que o som –, mas domesticou a imagem em movimento…
(485) A tecnologia transformou o mundo das artes, embora mais cedo e mais completamente o das artes e diversões populares que o das “grandes artes”, sobretudo as mais tradicionais.

II

(485) Mas o que aconteceu com elas? À primeira vista, a coisa mais impressionante no desenvolvimento das grandes artes no mundo após a Era das Catástrofes foi uma acentuada mudança geográfica para longe dos centros tradicionais (europeus) de cultura de elite, e – em vista da era de prosperidade global sem precedentes – um enorme aumento dos recursos financeiros disponíveis para apoiá-las. […] Que a “Europa” (…) não era mais a magna casa das grandes artes, tornara-se uma observação corriqueira.
(492) A cultura comum de qualquer país urbanizado de fins do século XX se baseava na indústria da diversão de massa – cinema, rádio, televisão, música popular…
(494) O declínio dos gêneros clássicos da grande arte e literatura não se deveu, claro, a nenhuma escassez de talento. […] O primeiro [motivo] era o triunfo universal da sociedade de consumo de massa…
(496) Os intelectuais mais velhos, agora cada vez mais descritos como “elitistas” (palavra adotada com entusiasmo pelo novo radicalismo da década de 1960), olhavam de cima as massas, que viam como recipientes passivos do que o grande capital queria que comprassem.
(500) Em retrospecto, é claro que o projeto de revolução de vanguarda estava destinada ao fracasso desde o início, tanto por sua arbitrariedade intelectual quanto pela natureza do modo de produção que as artes criativas representavam numa sociedade burguesa liberal.
(501) Contudo, como observou Walter Benjamin, a era da “reprodutibilidade técnica” transformou não apenas a maneira como se dava a criação – assim tornando o cinema e tudo que dele derivava (televisão, vídeo) a arte central do século – mas também a maneira como os seres humanos percebiam a realidade e sentiam as obras de criação.

18 – FEITICEIROS E APRENDIZES
As ciências naturais

I

(504) Em 1910, todos os físicos e químicos alemães e britânicos juntos chegavam talvez a 8 mil pessoas. Em fins da década de 1980, o número de cientistas e engenheiros de fato empenhados em pesquisa e desenvolvimento experimental no mundo era estimado em cerca de 5 milhões, dos quais quase 1 milhão se achava nos EUA…
(510) Certamente foi após a explosão da primeira bomba nuclear em 1945. Contudo, não pode haver dúvida de que o século XX foi aquele em que a ciência transformou tanto o mundo que conhecemos quanto o nosso conhecimento dele.
(513) Contudo, na primeira metade do século, os grandes riscos da ciência vinham não dos que se sentiam humilhados pelos ilimitados e incontroláveis poderes dela, mas dos que achavam que podiam controlá-los.
(515) É verdade que os próprios cientistas sabiam melhor que ninguém quais poderiam ser as conseqüências potenciais de suas descobertas.

II
III
IV
V


(535)
 O que estava em causa agora não era a busca da verdade, mas a impossibilidade de separá-la de suas condições e conseqüências. Ao mesmo tempo, o debate era essencialmente entre pessimistas e otimistas em relação à raça humana…

19 – RUMO AO MILÊNIO
I

(538) O Breve Século XX fora de guerras mundiais, quentes ou frias, feitas por grandes potências e seus aliados em cenários de destruição de massa cada vez mais apocalípticos, culminando no holocausto nuclear das superpotências, felizmente evitado.
(540) … o grosso da xenofobia popular nos países ricos era dirigido contra estrangeiros vindos do Terceiro Mundo…
(541) Em suma, o século acabou numa desordem global cuja natureza não estava clara, e sem um mecanismo óbvio para acabar com ela ou mantê-la sob controle.

II

(542) 
O fracasso do modelo soviético confirmou aos defensores do capitalismo sua convicção de que nenhuma economia sem Bolsa de valores podia funcionar; o fracasso do modelo ultraliberal confirmou aos socialistas a crença mais justificada em que os assuntos humanos, incluindo a economia, eram demasiado importantes para ser deixados ao mercado.

III

(547) Os problemas ecológicos, embora a longo prazo decisivos, não eram tão imediatamente explosivos. Isso não significa subestimá-los, embora desde a época em que entraram na consciência e no debate públicos, na década de 1970, eles tendessem a ser enganadoramente discutidos em termos de apocalipse iminente.
(548) Do ponto de vista ambiental, se a humanidade queria ter um futuro, o capitalismo das Décadas de Crise não podia ter nenhum.

IV
V

(555) Distribuição social, e não crescimento, dominaria a política do novo milênio…

VI

(558) No fim do século,um grande número de cidadãos se retirava da política, deixando as questões de Estado à “classe política” – a expressão parece ter se originado na Itália –, que lia os discursos e editoriais uns dos outros; um grupo de interesse especial de políticos profissionais, jornalistas, lobistas e outros cuja ocupação ficava por último na escala de confiabilidade nas pesquisas sociológicas. Para muita gente o processo político era irrelevante, ou apenas uma coisa que afetava suas vidas favoravelmente ou não.

VII

(562) O futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica. As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana.
(562) Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e […] por quê. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão.

 

 

 

Fichamento: Comunidades Imaginadas de Benedict Anderson.

Escrito por William Rodrigues, estudante de Relações Internacionais na UNILA (Universidade Federal da Integração Latino Americana) e graduado em História pela UNESP (Universidade Federal Paulista) no ano de 2010. Texto original disponível em: http://www.paginadowill.com/2014/01/fichamento-comunidades-imaginadas-de.html

 

 

 

 

 

Introdução.

(P.26) Benedict Anderson inicia sua obra buscando compreender o por que das Guerras entre Vietnã, Camboja e China entre1978 e 1979. A primeira guerra convencional em grande escala entre países socialistas e inegavelmente revolucionários, que em tese compartilhavam da mesma ideologia.

(P.27) É interessante notar que desde a Segunda Guerra Mundial todas as revoluções vitoriosas se definiram em termos nacionais – Republica Popular da China, República Socialista do Vietnã, etc – e, com isso se afirmaram solidamente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revolucionário.

(P.28) Hobsbawm afirma que os estados marxistas estão se tornando, nacionais e nacionalistas. E essa tendência não se restringe apenas ao mundo socialista. Todos os anos a ONU admite membros novos.  E muitas “nações antigas” consolidadas, veem-se desafiadas por “sub-nacionalismos” em seu próprio território, que sonham em se tornarem nações.

(P.29) Este livro pretende oferecer, a título de ensaio, algumas ideias para uma interpretação da anomalia do nacionalismo.

(P.30) O ponto de partida de Anderson é que tanto a nacionalidade (ou condição nacional), quanto o nacionalismo são produtos culturais específicos.

(P.31) Conceitos e Definições

(P.32) Ele considera dentro de um espírito antropológico a seguinte definição de nação: uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e ao mesmo tempo soberana.

Ela é imaginada por que mesmo os membros das mais minúsculas das nações jamais conhecerão, encontraram ou nem sequer ouvirão falar de todos os seus companheiros (compatriotas) embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles. A única coisa que pode dizer que uma nação existe é quando muitas pessoas se consideram uma nação.

(P.33) Na verdade, qualquer comunidade maior que uma aldeia primordial do contato face a face é imaginada. Até mesmo ela.

Imagina-se a nação como limitada por que até mesmo a maior delas que agregue um bilhão de habitantes, possui fronteiras finitas ainda que elásticas. Nenhuma delas imagina ter a mesma extensão da humanidade. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com o dia em que todos os membros da espécie humana se unirão à sua nação.

(P.34) Imagina-se a nação soberana por que o conceito nasceu na época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico da ordem divina. Amadurecendo em uma época em que mesmo os adeptos mais fervorosos de qualquer religião se depararam com o pluralismo de religiões no mundo. Notando então que a única maneira de serem livres é serem soberanas sobre um pedaço determinado de terra.

E por último ela é imaginada como uma comunidade por que independente da desigualdade e da exploração que possam existir dentro dela, a nação sempre é concebida como uma profunda camaradagem horizontal. No fundo foi essa fraternidade que tornou possível, nestes últimos dois séculos, que tantos milhões de pessoas matassem e morressem por essas criações imaginárias e limitadas.

Essas mortes nos levam a pensar no problema central posto pelo nacionalismo: o que faz com que parcas criações imaginativas de pouco mais de dois séculos gerem sacrifícios tão descomunais? A resposta está nas raízes culturais do nacionalismo.

(P.35) Cap. 1: Raízes Culturais.

Não existem símbolos mais impressionantes da cultura moderna do nacionalismo do que os cenotáfios e o túmulo do soldado desconhecido. Contudo, estes túmulos vazios estão carregados de imagens nacionais espectrais.

(P.36) Se o nacionalismo se importa tanto com a morte e a imortalidade, isso sugere sua grande afinidade com os imaginários religiosos. Com isso vale a pena começar a avaliar as raízes do nacionalismo pela morte, o último elemento de uma série de fatalidades. A morte, assim como a herança genética pessoal, nosso sexo, a época em que viemos, nossas capacidades físicas, língua-materna, etc são fatores contingentes e inelutáveis.

(P.37) O grande mérito das religiões (fora seu papel na legitimação do sistema de dominação e exploração) é a sua preocupação com o homem no universo. Ela tenta explicar o por que. A religião se interessa pelos vínculos entre os mortos e os ainda não nascidos.

(P.38) O século XVIII na Europa marca o amanhecer do nacionalismo e o anoitecer do pensamento religioso. A religião declinou, mas o sofrimento que ela ajudava a apaziguar não desapareceu.

Admite-se que os estados nacionais são “novos” e “históricos”, ao passo que as nações ao qual elas dão expressão política sempre assomam de um passado imemorável, seguindo a um futuro ilimitado. É a magia do nacionalismo que transforma o acaso em destino.

(P.39) Anderson não está sugerindo que o nacionalismo tenha substituído a religião. O que ele está fazendo é alinhando o nacionalismo não a ideologias políticas conscientemente adotadas, mas a sistemas culturais. Religião e nacionalismo foram estruturados de forma a serem incontestáveis.

(P.40) A Comunidade Religiosa.

Todas as comunidades clássicas se consideravam cosmicamente centrais, através de uma língua sagrada ligada a uma ordem supra-terrena de poder. Essas comunidades clássicas ligadas por línguas sagradas tinham o caráter diferente das comunidades imaginadas das nações modernas: a confiança no sacramento único de usas línguas e daí a aceitação de novos membros.

O árabe para os muçulmanos, o latim para os cristãos e o mandarim para os budistas. Apesar destas serem línguas mortas para a maioria de seus seguidores, elas funcionavam como símbolos para todos. Unindo fiéis de regiões diferentes sob os signos do árabe, do mandarim e do latim. Uma vez aprendido os símbolos, independente da região e da língua nativa, a pessoa era aceita naquela religião.

(P.47) O Reino Dinástico.

(P.48) Hoje em dia, talvez seja difícil sentir empatia com um mundo onde o reino dinástico apareça como único sistema “político” viável. Pois a monarquia contraria todas as concepções modernas da vida política. A realeza opera tudo de um centro elevado, tem sua legitimidade por via divina e não da população, que é composta por súditos e não por cidadãos.

Hoje o Estado opera sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. Mas antigamente os Estados eram definidos por centros, com fronteiras porosas e indistintas. Daí o paradoxo da facilidade com que esses reinos pré-modernos conseguiram manter seu domínio sobre populações heterogêneas por longo tempo.

Deve-se lembrar que esses antigos Estados se expandiam não só pela guerra como também por uma política sexual de casamentos entre dinastias.

(P.51) Percepções Temporais.

Contudo, é um erro pensar que comunidades imaginadas das nações teriam simplesmente surgido a partir das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos substituindo-as.

(P.52) Por sob o declínio das comunidades, línguas e linhagens sagradas estava ocorrendo uma transformação nos modos de compreender o mundo, que possibilitou “pensar a nação”.

(P.56) A ideia de um organismo sociológico atravessando cronologicamente um tempo vazio e homogêneo é a analogia de nação, que também é concebida como uma comunidade sólida percorrendo constantemente a história, seja em sentido ascendente ou descendente.

(P.57) Um americano nunca vai conhecer, e nem sequer saber o nome dos 240 milhões de compatriotas. Ele não têm ideia do que estão fazendo a cada momento. Mas tem plena confiança na atividade constante, anônima e simultânea deles.

(P.69) Recapitulando, Anderson sustenta que a própria possibilidade de imaginar a nação só surgiu historicamente quando, e onde, três concepções culturais fundamentais perderam o domínio sobre a mentalidade do homem.

A primeira é a ideia de que uma determinada língua escrita oferece acesso privilegiado à verdade ontológica.

A segunda é a crença de que a sociedade se organiza naturalmente em torno e abaixo de centros elevados (monarcas que governavam por graça divina).

O terceiro é uma concepção da temporalidade em que a cosmologia e a história se confundem, e as origens do mundo dos homens são essencialmente as mesmas.

O declínio lento e irregular dessas convicções mutualmente entrelaçadas, primeiro na Europa Ocidental e depois em outros lugares, sob o impacto da transformação econômica, das descobertas sociais e científicas e do desenvolvimento de meios de comunicação cada vez mais velozes, levou a uma brusca clivagem entre cosmologia e história.

(P.70) Desse modo, não admira que se iniciasse a busca de uma nova maneira de unir significativamente a fraternidade, o poder e o tempo. O elemento que mais catalisou e fez frutificar essa busca foi o capitalismo editorial, que permitiu que as pessoas, em números sempre muito maiores, viessem a pensar sobre si mesmas e a se relacionar com as demais de maneiras radicalmente novas.
(P.71) Cap.2: As Origens da Consciência Nacional.

A imprensa foi determinante para a criação de ideias inteiramente novas sobre a simultaneidade. E a nação se tornou tão popular dentro deste tipo de comunidade principalmente graças ao capitalismo.

(P.73) Pois, sendo a gráfica uma empresa capitalista ela buscava cada vez mais mercado e imprimia mais e mais livros.

(P.75) Três foram os fatores vernaculizantes[1] do capitalismo: Primeiro, a mudança do próprio latim. Segundo, o impacto da Reforma e dos atos de Martinho Lutero. A aliança entre o protestantismo e o capitalismo editorial, explorando edições populares baratas, logo criou novos e vastos públicos leitores, entre eles comerciantes e mulheres que sabiam pouco ou quase nada de latim. E o terceiro, foi a difusão lenta, geograficamente irregular de determinados vernáculos como instrumento de centralização administrativa. (P.76) A fragmentação da Europa pós fim do Império Romano significava que nenhum soberano poderia monopolizar o latim (como os imperadores chineses faziam com o mandarim) e converte-lo em sua língua oficial, já que o latim não era centralizado.

(P.82) Podemos resumir que a convergência do capitalismo e da tecnologia da imprensa sobre a fatal diversidade da linguagem humana criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada, a qual, em sua morfologia básica, montou o cenário para a nação moderna.

(P.84) Cap. 3: Pioneiros Crioulos[2].

Em primeiro lugar, quer se pense no Brasil, nos EUA ou nos países hispânicos, a língua não era um elemento que os diferenciasse das respectivas metrópoles imperiais. Todos inclusive os EUA, eram estados crioulos, formados e liderados por gente que tinha a mesma língua e a mesma ascendência do adversário a ser combatido. (P.85) Na verdade, cabe dizer que a língua nunca se colocou como questão nesses primeiras lutas de libertação nacional.

Em segundo lugar, boa parte do hemisfério ocidental não segue a tese de Nairn de que o “nacionalismo moderno esteve ligado ao batismo político das classes inferiores pela classe média descontente que tentava canalizar as energias populares em favor de novos estados”. Pelo menos na América Central e do Sul, a “classe média” ao estilo europeu era insignificante no século XVIII.

(P.86) Longe de tentar conduzir as “classes inferiores à vida política” a elite tinha medo dela. Ainda era fresca a lembrança das revoltas de Tupac Amarú no Perú e de Toussaint L’Ouverture no Haiti.

(P.87) O movimento Latino-Americano pela independência eram de “pouca espessura social” e no entanto eram movimentos de independência social.

(P.88) Eis que surge o enigma: por que foram precisamente as comunidades crioulas que desenvolveram concepções tão precoces sobre sua condição nacional, bem antes que a maior parte da Europa? Por que essas colônias, geralmente com grandes populações oprimidas e que não falavam o espanhol, geraram crioulos que redefiniram conscientemente essas populações como integrantes de uma mesma nacionalidade e a Espanha como inimigo estrangeiro? Por que o império Hispano-americano que havia existido serenamente por quase três séculos se fragmentou em dezoito Estados diferentes?

Os dois fatores geralmente apresentados são, o aumento do controle madrilenho e a difusão das ideias do iluminismo.

(P.89) A vitória das 13 colônias (1770) e o inicio da Revolução Francesa (1789) também exerceram vigorosa influência.

(P.90) Essas explicações, apesar de importantes, não explicam por que Chile, Venezuela e México se mostraram emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis, e nem por que San Martín disse que certos aborígenes deviam ser identificados como “peruanos”. Também não explica os sacrifícios feitos, pois muitas pessoas perderam propriedades e até mesmo a vida nessa empreitada.

(P.91) A moldagem inicial das unidades administrativas americanas foi, em certa medida arbitrária e fortuita. E a falta de comunicação entre elas possibilitou a fragmentação.

Além disso, a política comercial de Madri fez com que as unidades administrativas se transformassem em zonas econômicas distintas. Sendo ainda o comércio entre elas proibido.

(P.92) Para entender como as unidades administrativas puderam, ao longo do tempo, serem vistas como terras pátrias, não só nas américas, mas também em outras partes do mundo, é preciso observar de que modo as organizações administrativas criam significado.

(P.93) Durante o período das religiões, a amplitude geográfica de uma religião era determinada pela peregrinação que estes fiéis faziam para Roma, Meca ou Benares. Em Meca encontravam-se pessoas das mais distantes regiões da África, Ásia e Europa o que dava a ideia do alcance do islamismo e a sua amplitude geográfica.

(P.94) Com a ascensão das monarquias absolutistas e a tentativa deste reis de unificar o reino que era fragmentado pela nobreza feudal, outro tipo de viagem surgiu para demarcar o território. O mensageiro real, como funcionário publico que viajava todo o território demarcando-o conforme o alcance de suas viagens.

(P.95) A intercambialidade dos documentos, que reforçava a intercambialidade dos homens, foi alimentada pelo desenvolvimento de uma língua oficial padronizada. Qualquer língua escrita em princípio, serviria para essa função, como mostra a pomposa sucessão, entre os séculos XI e XIV, do anglo-saxão, latim, normando e médio-inglês em Londres. Com a vernaculatização da língua houve um aumento da centralização, impedindo que funcionários de Madri intercambiassem com os de Paris por exemplo. Sendo a expansão ultramarina europeia uma extensão fracassada deste modelo.

A tendência absolutista de promover os funcionário mais pelo mérito do que pelo berço não foi efetiva nas colônias. Dos 170 vice-reis somente 4 eram crioulos.

(P.97) Além de barrarem suas peregrinações. Se um funcionário espanhol podia andar todo o continente americano, o funcionário crioulo ficava restrito ao seu território. Seu movimentos laterais eram restritos, assim como sua ascensão vertical.

(P.100) Indiretamente, o Iluminismo também ajudou a cristalizar uma distinção irreversível entre metropolitanos e crioulos. Os textos de Rousseau e Herder de que o clima e a ecologia tinham um impacto decisivo sobre a formação da cultura e do caráter, afastou ainda mais metropolitanos e crioulos que eram tidos como selvagens e inadequados para cargos mais elevados.

(P.101) Até aqui, dedicamos nossa atenção aos mundos dos funcionários da América, que apesar de importantes eram em dimensões muito reduzidas.

A peregrinação dos vice-reis não teria nenhuma consequência enquanto a extensão territorial não pudesse ser imaginado como nação e isso só se deu com o surgimento do capitalismo tipográfico.

(P.102) A imprensa chegou cedo a Nova Espanha, mas durante dois séculos ficou sobre rígido controle da Coroa e da Igreja. Na América do Norte a imprensa nem existia, mas no século XVIII houve uma revolução tipográfica nos EUA.

Benjamim Franklin está intimamente ligado ao nacionalismo crioulo na América do Norte. Contudo, deve-se entender que a imprensa só se desenvolveu nos EUA quando os tipógrafos descobriram uma nova forma de renda – o jornal! Na América Espanhola ocorreram processos semelhantes, contudo de modo mais lento.

(P.103) No início estes jornais eram meramente informativos (datas de chegada e partida de navios, preços vigentes, casamentos, decretos, etc). Foi só uma questão de tempo até aparecerem elementos políticos.

(P.104) Um traço marcante desses jornais era o seu caráter local. E não existia a ideia de simultaneidade entre as diversas regiões do império espanhol. Um mexicano poderia receber informações sobre os fatos ocorridos em Buenos Aires, e estes fatos lhe parecerem “semelhantes” mas não “partes” integrantes deles.

Nesse sentido, o “malogro” da experiência hispano-americana e, criar um nacionalismo para toda região reflete o nível de desenvolvimento capitalista e tecnológico do século XVIII e o atraso “local” do capitalismo e da tecnologia espanhola na administração do império.

(P.105) Os crioulos norte-americanos estavam numa situação mais favorável para concretizar a ideia de “América”. As 13 colônias eram relativamente pequenas e seus centros estavam em dinâmica comunicação, além de haver traços bastante fortes entre seus respectivos habitantes, tanto pela imprensa quanto pelo comércio. Sem contar que o avanço para o oeste foi feito por pessoas do leste.

(P.106) Benedict Anderson quis explicar  neste capitulo que não foi o liberalismo e o iluminismo os criadores da ideia de nação, mas sim os funcionário-peregrinos e a imprensa.

(P.107) Cap. 4: Velhas línguas, novos modelos.

O final da era dos movimentos vitoriosos de libertação nacional nas Américas coincidiu com o inicio da era do nacionalismo que entre 1820 e 1920, mudaram a face do Velho Mundo, dois traços notáveis os diferenciam de seus predecessores.

1° Línguas impressas nacionais: Elas foram de fundamental importância ideológica e política (enquanto o espanhol e o inglês nunca foram questões relevantes na América revolucionária).

2° Todos eles funcionaram a partir de modelos deixados por seus antecessores.

Foi assim que na Europa a “nação” se tornou objeto de aspiração consciente a ser buscado, e não uma perspectiva de mundo que ganhou foco aos poucos. Assim veremos que nação foi uma invenção sem patente copiada e reproduzida várias e várias vezes.

Neste capítulo o objeto de análise será a língua impressa e sua “cópia” pirata.

(P.108) A ideia de língua como propriedade privada de uma nação teve enorme influência na Europa oitocentista e na teorização do nacionalismo.

(P.109) Se durante a Idade Média o homem era incapaz de conceber a distância temporal entre sua época (que ele acreditava ser o fim das eras, pois o Apocalipse era algo iminente) e a Idade Antiga do Novo e do Velho Testamento. Neste momento surgiu a “história comparada” que levou à concepção inédita de “modernidade” que era contraposta à “antiguidade”.

Durante o século XVI, a “descoberta” europeias de civilizações grandiosas (China, Japão, Índia) e do México Asteca e do Perú Incaico, mostrou um irremediável pluralismo humano. De modo geral essas civilizações tinham se desenvolvido autonomamente da Europa, da cristandade, da Antiguidade e até mesmo do homem: pois suas genealogias não remetiam ao Éden. Apenas o tempo vazio e homogêneo lhes ofereceu acomodação.

(P.110) Com efeito, os descobrimentos e as conquistas tornou possível pensar a Europa como apenas uma entre muitas civilizações, além de provocar uma revolução nas ideias europeias sobre as línguas.

(P.111) Com o estudo comparado das línguas, acabou-se com a ideia de que o hebreu era a única língua antiga ou que possuía origem divina. A partir daí, as antigas línguas sagradas (latim, grego e hebreu) foram obrigadas a se misturar em pé de igualdade com a vastidão de línguas plebeias que agora eram rivais no mercado editorial. Se todas as línguas eram mundanas todas mereciam estudo e admiração. Mas de quem? Logicamente, de seus novos donos, os falantes e leitores nativos de cada língua, pois agora nenhuma pertencia a Deus.

(P.112) Segundo Seton-Watson o século XIX na Europa, foi o século dos linguistas – de todas as áreas. Estes intelectuais foram fundamentais para a formação do nacionalismo europeu com a criação de seus dicionários monolíngues que eram o tesouro de cada língua. Já os dicionários bilíngues colocavam em pé de igualdade todas as línguas.

(P.117) É claro que todos esses lexicógrafos, filólogos, gramáticos, folcloristas, jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no vazio. (P.118) Afinal produziam para o mercado editorial e assim para o publico consumidor. Contudo o numero de letrados naquela época era pequeno.

Na metade do século XIX, a Europa aumentou seus gastos públicos. Em alguns países em mais de 90%. A expansão burocrática criou mais vagas no Estado e agregou classes sociais muito variadas. Criando uma grande classe média burocrática em quase todos os países europeus.

(P.119) Já o surgimento de uma burguesia mercantil e industrial foi algo extremamente irregular.

Benedict Anderson considera a burguesia como a primeira classe a construir uma solidariedade a partir de uma base essencialmente imaginada. Diferente da nobreza que necessitava se casar para estreitar laços com outros nobres, a burguesia era ligada apenas por acordos. Os burgueses não precisavam se conhecer, nem casar seus filhos. Mas enxergavam a existência de milhares e milhares e outros parecidos com eles, através de uma língua impressa, já que uma burguesia iletrada e quase impossível.

(P.123) Com o aumento da alfabetização, por toda parte ficou mais fácil granjear apoio popular, as massas descobrindo uma nova glória na consagração das línguas que elas sempre, humildemente haviam falado.

Até certo ponto a formulação de Nairn é correta: de que a “nova intelectualidade de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas para a história; e o convite deveria ser feito numa língua que eles entendessem”.

Mas por que o convite foi tão atraente e por que alianças tão diferentes puderam enviá-los. Para responder veremos a questão da “cópia pirata”.

(P.127) Cap. 5: Imperialismo e Nacionalismo Oficial.

No decorrer do século XIX, a revolução filológica-lexicográfica e o surgimento de movimentos nacionalistas na Europa, frutos não só do capitalismo mas da elefantíase dos estados dinásticos criaram várias dificuldades culturais e políticas para muitas dinastias dominantes que não tinham nacionalidade.

(P.128) Na Europa continental, parentes da mesma família dinásticas governavam estados diferentes e até rivais. Que nacionalidade poderíamos atribuir aos Bourbon na França e na Espanha, aos Hohenzollern na Prússia e na Romênia, aos Wittelhach na Bavária e na Grécia?

Vimos também que estas dinastias escolheram como línguas vernaculares oficiais as mais convenientes para elas.

Contudo na Europa existia a convicção de que as línguas eram propriedades pessoais de grupos muito específicos e que esses grupos imaginados como comunidades, tinham o direito de ocupar uma posição autônoma dentro de uma confraria de iguais.

(P.131) A chave para situar o “nacionalismo oficial” – fusão deliberada entre a nação e o império dinástico – é lembrar que ele se desenvolveu depois, e em reação aos movimentos nacionais populares que proliferavam na Europa desde 1820. Se esses nacionalismos tinham se modelado pelas histórias americana e francesa, agora se tornavam modulares. Bastava apenas um certo truque para que o império se tornasse um travesti nacional atraente.

Anderson analisa três casos diferentes de “nacionalismo oficial”, o Russo, o Inglês e o Japonês.

(P.160) Concluindo, sustentamos que, a partir do século XIX dentro da Europa desenvolveram-se “nacionalismos oficiais”. Nacionalismos historicamente “impossíveis” antes do surgimento de nacionalismos linguísticos populares, pois no fundo, foram reações dos grupos de poder sobretudo dinásticos e aristocráticos – ameaçados de exclusão ou marginalização nas comunidades imaginadas populares.

(P.161) Tais nacionalismos oficiais eram políticas conservadoras, para não dizer reacionárias, adaptadas do modelo dos nacionalismos populares, em larga medida espontâneos, que os precederam.

Em nome do imperialismo, muitos políticas parecidas foram implantadas pelos mesmos tipos de grupos nos vastos territórios asiáticos e africanos no decorrer do século XIX.

Por fim, vimos que refratados em culturas e histórias não europeias, eles foram adotados e imitados por grupos dirigentes nativos nas poucas áreas (Japão e Sião) que escaparam da sujeição direta.

(P.163) Cap. 6: A Última Onda.

A Primeira Guerra Mundial trouxe ao fim a era das grandes dinastias. Em 1922, os Habsburgos, os Hobenzollern, os Romanov e os Otomanos tinham acabado. A partir daí, a nome internacional era o Estado Nacional, de modo que mesmo as potências imperiais restantes compareciam à Liga das Nações em trajes nacionais e não mais em uniformes imperiais como nas época do Congresso de Berlim.

Após a II Guerra a maré de Estados Nacionais atingiu seu auge. E em 1970 até o império português havia se tornado coisa do passado.

Os novos estados do segundo pós-guerra têm sua próprias características, que seriam incompreensíveis a não ser como sucessores dos modelos que abordamos anteriormente.

(P.164) Os novos “nacionalismos coloniais” são semelhantes aos nacionalismos coloniais de épocas anteriores pelo isomorfismo, entre a extensão territorial de cada nacionalismo e a extensão territorial da unidade administrativa imperial anterior.

A semelhança não é mera coincidência pois, está relacionada com a geografia das peregrinações nacionais anteriores.

(P.165) Lembremos que no século XVII, a unidade administrativa imperial adquiriu um significado nacional em parte por que ela circunscrevia a ascensão dos funcionário públicos. O mesmo vale para o século XX.

Contudo, em fins do século XIX e sobretudo no XX, essas viagens já não eram feitas apenas por alguns viajantes, e sim por enormes multidões graças a três fatores:

(P.166) 1°: Desenvolvimento e aprimoramento dos transportes. 2°: A “russificação” imperial tinha o seu lado prático, além do lado ideológico. O enorme tamanho dos impérios europeus impossibilitava a contratação de funcionários públicos apenas oriundos da metrópole. Sendo necessário contratar entre os colonos. 3°: Houve uma difusão do ensino moderno, não só do Estado Colonial, mas também particulares, religiosos e leigos. Essa expansão se deu para completar os cargos públicos coloniais e pelo entendimento do colono de que o conhecimento é importante.

(P.167) De modo geral, concorda-se que as camadas intelectuais foram fundamentais para o surgimento do nacionalismo nos territórios coloniais. Uma vez que era impedido aos nativos desempenha funções realmente rentáveis.

(P.170) Um traço interessante desta intelectualidade nacionalista da colônia era sua juventude. Os intelectuais era compostos, sobretudo, da primeira geração numericamente significativa a receber educação europeia.

(P.197) Revisando: a última onda do nacionalismo ocorreu em sua maioria nos territórios colonizados da África e da Ásia e foi uma reação ao novo tipo de imperialismo mundial, possibilitado pelas realizações do capitalismo industrial.

O nacionalismo oficial (solda entre o novo princípio nacional e o velho principio dinástico) levou a russificação nas colônias extra-européias. Os impérios se tornaram muito extensos para serem governados por nacionais então criaram escolas para educar os nativos e formar quadros de subordinados especializados para o Estado e para as empresas. Esses sistemas educacionais criaram novos tipos de peregrinação (a estudantil) e o entrosamento entre os estudantes peregrinos criou a base territorial para o surgimento de novas comunidades imaginadas, onde os nativos puderam se imaginar como nacionais.

(P.199) Cap. 7: Patriotismo e Racismo.

Nos capitalismos anteriores Benedict Anderson tentou delinear os processos pelos quais a nação veio a ser imaginada, modelada, adaptada e transformada. Agora é a hora de explicar porquê das pessoas se disporem a morrer por tais invenções.

Numa época em que é tão comum que intelectuais cosmopolitas e progressistas insistam no caráter quase patológico do nacionalismo, nas suas raízes encravadas no medo e no ódio do outro e nas afinidades com o racismo, cabe lembrar que as nações inspiram amor, e em um amor de profundo autosacrifícios.

(P.200) Os frutos culturais do nacionalismo (poesia, monumentos, musicas) mostram esse amor com clareza. Sendo muito difícil encontrar elementos de ódio e de desprezo.

(P.202) A ideia de sacrifício supremo vem apenas como uma ideia de pureza, através da fatalidade. Morrer pela pátria, assume uma grandeza moral que não se pode comparar por morrer pelo Partido Trabalhista, ou pela Associação Médica Americana, pois estão são entidades nas quais pode-se ingressar e sair a vontade. A grandeza de morrer pela Revolução também deriva do grau de sentimento de que ela é algo fundamentalmente puro.

(P.203) Aqui voltamos à língua.

1° Nota-se o caráter primordial da língua, mesmo as sabidamente modernas. Ninguém é capaz de dizer a data em que nasce uma língua. Todas se avultam imperceptivelmente de um passado sem horizonte. Assim, as línguas se mostram mais enraizadas do que praticamente qualquer outra coisa e é ao mesmo tempo, o que nos liga afetivamente ao mortos.

2° Existe um tipo específico de comunidade contemporânea que apenas a língua é capaz de sugerir. Tomemos o exemplo dos hinos nacionais. Por mais banal que seja a letra e medíocre a melodia, há nesse canto uma experiência de simultaneidade. Precisamente neste momento, pessoas totalmente desconhecidas entre si pronunciam os mesmo versos seguindo a mesma música.

(P.208) Nairn se enganou ao dizer que o racismo e o antissemitismo derivam do nacionalismo.

O fato é que o nacionalismo pensa em termos de destinos históricos, ao passo que o racismo sonha com contaminação eternas, transmitidas desde as origens dos tempos por uma sequencia interminável de cópulas abomináveis: fora da história. Os negros devido à nodoa invisível do sangue, serão sempre negros; os judeus devidos ao sêmen de Abraão, serão sempre judeus.

(P.209) Os sonhos do racismo têm, na verdade, a sua origem nas ideologias de classe, e não nas de nação: sobretudo nas pretensões de divindade entre os dirigentes e nas pretensões de “linhagem” e de “sangue azul” ou “branco” entre os aristocratas.

(P.210) Onde o racismo se desenvolveu fora da Europa no século XIX, sempre esteve associado com a dominação europeia por duas razões. 1° Por causa do nacionalismo oficial e do processo de russificação colonial. 2° O império colonial, com seu aparato burocrático e suas políticas “russificantes” permitiu a muitos burgueses se fazerem aristocratas fora da corte central.

(P.216) Cap. 8: O Anjo da História.

Começaremos este breve capitulo com as guerras entre as republicas socialistas do Vietnã, Camboja e China.

(P.222) Como foi dito anteriormente e se encaixa perfeitamente neste caso os revolucionários vietnamitas, cambojanos e chineses, assim que conquistam o Estado, fazem uso de todas a estrutura já existente em seu favor assim como o nacionalismo que já existia. A guerra entre eles foi uma guerra de chancelaria.

(P.226) Cap. 9: Censo, Mapa e Museu.

Na edição original deste livro, Anderson escreveu que “nas políticas de construção da nação dos novos Estados vemos um grande entusiasmo nacionalista popular através dos meios de comunicação, da educação, da administração, e assim por diante”.

O que o autor supunha em sua visão limitada daquela época era que o nacionalismo oficial dos mundos colonizados da África e da Ásia vinham diretamente modelados sobre o nacionalismo oficial dos estados dinásticos europeus do século XIX.

Contudo, ele percebeu que a genealogia próxima deveria ser buscada na criação da imagem do Estado Colonial.

(P.227) Por isso, para entender melhor iremos estudas 3 instituições de poder: o censo, o mapa e o museu. Que Anderson ressalta o fato de como elas moldaram a forma como as potências coloniais viam e tentavam manter o controle sobre suas colônias.

(P.222) O Censo.

A ideia fictícia do censo é que todos estão presentes nele, e que todos ocupam um – e apenas um – lugar extremamente claro e sem frações. Essa é uma maneira de criar imagens, adotada pelo Estado colonial tinha origens muito anteriores às do censos dos anos 1870.

(P.236) O Mapa.

Aos poucos localidades como Cairo e Meca deixaram de ser vistas somente como simples localidades numa geografia muçulmana e passaram a ser pontos em folhas de papel que incluíam outros pontos como Caracas, Paris e Moscou. A relação plana entre estes pontos não tinham relação com a importância real destes lugares e sim determinadas matematicamente.

(P.246) O Museu.

O museu e a imaginação museológica são profundamente políticos. Tentando criar uma imagem gloriosa junto à população do novo Estado.

(P.253) Assim, mutuamente interligados, censo, mapa e museu iluminam o estilo do pensamento do Estado colonial tardio em relação a seus domínios. A “urdidura” desse pensamento era uma grade classificatória totalizante que podia ser aplicada com uma flexibilidade ilimitada a qualquer coisa sobre o controle real ou apenas visual do Estado: povos, regiões, religiões, línguas, objetos produzidos, monumentos, etc. O efeito dessa grade era sempre poder dizer que tal coisa era isso e não aquilo, que fazia parte disso e não daquilo. Essa coisa qualquer era delimitada, determinada e, portanto, enumerável.

(P.256) Cap. 10: Memória e Esquecimento.

Espaço: Novo e Velho.

New York, Nueva Leon, Nouvelle Orléans, Nova Lisboa, Nieuw Amsterdam. Já no século XVI, os europeus tinham começado a adotar o estranho hábito de denominar lugares remotos, primeiro nas Américas e na África, depois na Ásia, Austrália e Oceania, como “novas” versões de “velhos” topônimos em suas terras de origem. Além disso, eles mantiveram a tradição mesmo em lugares que passaram para outros senhores imperiais, de modo que Nouvelle Orléans se tornou New Orleans e Nieuw Zeeland para Nem Zeland.

(P.257) O que é interessante nos nomes americanos dos séculos XVI a XVIII “novo” e “velho” eram entendidos sincronicamente, coexistindo dentro do tempo vazio e homogêneo. Vizcaya ao lado de Nueva Vizcaya, New London ao lado de London: o que mais indica rivalidade entre irmãos do que uma sucessão hereditária.

Essa inédita novidade sincrônica só podia surgir historicamente quando houvesse grupos consideráveis de pessoas em condições de se conceberem vivendo vidas paralelas às de outros grupos consideráveis de gente. Entre 1500 e 1800, a construção de navios e os avanços tecnológicos tornou possível a criação destas imagens. Pois a pessoa poderia morar no planalto peruano, nos pampas argentinos ou na Nova Inglaterra e mesmo assim sentir-se ligado a certas regiões ou comunidades, a milhares de quilômetros de distância.

(P.258) Para que esse senso de paralelismo ou simultaneidade pudesse surgir e também ter vastas consequências políticas era necessário que a distância entre os grupos paralelos fosse grande, e que o mais novo deles tivesse um tamanho considerável e fosse estabelecido de forma duradoura, além de estar solidamente subordinado ao mais velho. Essas condições foram encontradas nas Américas, como nunca ocorrera antes por três motivos.1°, a imensidão do oceano impediram a gradual absorção dos povos dentro de unidades políticos-culturais mais amplas como a que submergiu a Escócia dentro do Reino Unido. 2° a migração europeia para a América foi gigantesca. (P.259) 3° a metrópole imperial dispunha de formidáveis aparatos burocráticos e ideológicos que permitiram subjugar os crioulos por vários séculos.

(P.261) Essas fatores ajudam a explicar por que o nacionalismo surgiu primeiro no Novo Mundo. Além de elucidar duas características peculiares das guerras revolucionárias que assolaram o Novo Mundo entre 1776 e 1825. Pois nenhum revolucionário Crioulo sonhou em manter o império intacto apenas transferindo a metrópole de uma sede europeia para uma sede americana. Ou seja, não desejava-se que Nem London sucedesse Old London, mas sim salvaguardar o paralelismo entre elas.

(P.262) Além disso, apesar das guerras serem extremamente sangrentas, os crioulos não precisavam temer o extermínio físico nem a escravidão, ao contrário do que ocorreu com tantos outros povos que estavam no caminho do imperialismo europeu. Afinal, eles eram brancos, cristãos e falavam espanhol ou inglês, além de serem os intermediários entre as colônias e o império. Eram guerras entre parentes, o que garantiu que após um certo período de ressentimento, fosse possível reatar laços culturais, as vezes políticos e econômicos.

Tempo: Novo e Velho.

Para os crioulos do Novo Mundo, os estranhos topônimos discutidos acima representam sua capacidade de se imaginarem como comunidades paralelas e comparáveis às da Europa; contudo alguns acontecimentos súbitos em fins do século XVIII, conferiram a essa novidade um significado inteiramente novo.

(P.263) O primeiro foi a Declaração de Independência das Treze Colônias em 1776, e a sua defesa militar republicana. Essa independência e o fato dela ter sido republicana, foi visto como algo inteiramente inédito. Logo depois, em 1789, houve a explosão no Velho Mundo com a Revolução Francesa.

Ambas, não criaram um sentimento de continuidade, mas sim uma sensação de ruptura radical com o passado. Nada exemplifica melhor isso do que a abolição do calendário cristão e a adoção do calendário secular.

(P.266) Na Europa, os novos nacionalismos começaram a se imaginar “despertando de um sono”. Imagem totalmente diferente do que ocorreu na América. Pois enquanto os nacionalistas das Américas olhavam para o futuro, os nacionalistas europeus buscavam suas glórias no passado. Contudo, com o tempo essa duplicidade desapareceu e os americanos começaram a buscar sua origem aborígene.

(P.271) O Fratricídio Tranquilizador.

Enquanto Michelet, o historiador da Revolução Francesa, buscava resgatar as pessoas que morreram durante Revolução Francesa do esquecimento, evitando assim o seu desaparecimento nas correntezas da história, Renan surgiu com a ideia da necessidade de esquecer certas coisas.

(P.273) Para Renan, “já ter esquecido” antigas tragédias é um dever cívico contemporâneo de primeira importância.

O fratricídio tranquilizador é a forma do Estado criar uma capa sobre assuntos desconcertantes para ele. Como massacres, guerras e crimes contra a humanidade. Contudo, o ato deve ser distante temporalmente dos contemporâneos. Um exemplo é a Guerra Civil Norte Americana, ensinada hoje nas escolas como uma guerra entre irmãos, algo que seria representado de maneira diferente caso o país estivesse dividido ao meio ainda hoje.

(P.278) A Biografia das Nações.

(P.279) Assim como com as pessoas modernas, as nações precisam gerar uma narrativa de identidade. Entretanto, na história secular de uma pessoa, há um começo e um fim, já as nações não possuem data de nascimento claramente identificada, e sua morte (quando acontece) nunca é natural. Como não há um criador original é praticamente impossível criar uma genealogia de gerações, sendo a única maneira moldar a biografia das nações os “recuos no tempo” do presente para o passado.

Fonte:

ANDERSON, Benedict: Comunidades Imaginadas. São Paulo. Cia das Letras, 2008.

Resenha: Lazer, modernidade, capitalismo – um olhar a partir da obra de Edward Palmer Thompson

Resenha do texto Lazer, modernidade, capitalismo: um olhar a partir da obra de Edward Palmer Thompson de Victor Andrade de Melo, construído por Dayane Mendes Soares para composição da nota do primeiro bimestre da disciplina de História Contemporânea I do quinto período do curso de Licenciatura em História, entregue ao professor Paulo Miguel  em 08 de Dezembro de 2014.

 

MELO, Victor Andrade. Lazer, Modernidade, Capitalismo: Um  Olhar a Partir da Obra de Edward Palmer Thompson. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: jan.-junh. 2010, vol. 23, nº 45, p. 5-26.

 

 

Victor Andrade de Melo tem por objetivo investigar a significação de conceitos como lazer, modernidade e capitalismo  na obra de E. P. Thompson. Este texto, construído através do método de analise bibliográfica comparativa,  é arquitetado a cerca da seguinte questão:

Que relações se pode estabelecer entre essa nova dinâmica dos tempos sociais e as tensões relacionadas á construção de um novo conjunto de comportamentos considerados adequados  para a consolidação do capitalismo? (MELO, 2010, p. 25).

A demarcação espaço-temporal é a Revolução Industrial Inglesa durante todo o século XVIII – foco principal das obras A Formação da Classe Operária e Costumes em Comum de Thompson. Este período é apresentado por inúmeros historiadores, das mais diversas correntes e escolas do pensamento histórico, como sendo o palco de mudanças políticas, sociais e econômicas que afetaram a concepção de mundo de vários grupos. Segundo MELO (2010, p. 25), o grande legado da obra de E. P. Thompson está na tese de que “o controle do tempo do não trabalho e das práticas de lazer” é “fundamental para garantir o ‘progresso’.”.

Para sustentar sua posição o autor, já na introdução, traz um debate historiográfico acerca  “do processo de consolidação do modo de produção fabril” (MELO, 2010, p.6) mostrando, assim, que Edward Palmer Thompson não desdenha das contribuições de O Capital, mas  vê no marxismo dogmático uma tendência ao evolucionismo – característica que acaba por engessar as dinâmicas sociais. É com base nisto que o autor realiza a sua analise acerca da formação classe operaria investigando as experiências dos trabalhadores para além das relações econômicas e de trabalho:

(…) nos modos de vestir e de morar, de comemorar, de festejar, de cantar, de transmitir suas tradições orais, de viver com elas ou de resistir às transformações também como vivencia cotidiana, em seu dia a dia (…). (FENELON apud MELO, 2010, p. 8).

Como no século XVIII a Inglaterra era marcada por uma economia doméstica, baseada na pequena lavoura e na manufatura. Aqui os artesãos, e não raro os camponeses em períodos de entressafras, manipulavam a matéria prima em casa, com seus próprios recursos, e aos mercadores cabia à distribuição do produto. Não havia, portanto, rígidas estruturas de organização o que impede traçar uma separação clara entre trabalho e a recreação – neste momento a palavra lazer não se aplica. Mas, à medida que o século XIX se aproximava a manufatura ia se transformando em fabrica e, depois, em indústria. É neste processo de transição que a distinção entre os tempos sociais vão se delineando. (MELO, 2010, p. 11).

No Reino Unido o protestantismo permitiu a abertura de espaço para atitudes racionais; para o questionamento da ‘magia’ da Igreja e, consequentemente, da autoridade  dos reinados absolutistas; para a quebra da ideia de  usura e o incentivo ao acumulo e a exibição de riquezas (teologia da prosperidade) entre outros. O laissez-faire e a iniciativa privada já estavam fortificados – se não, ainda, na economia de mercado já na economia cultural. (MELO, 2010, p. 9). Este panorama faz da vida urbana um convite ao lazer – seja devido a crescente diversificação do mercado de trabalho  ou por uma questão de status.

Assim, o processo de transição da manufatura para uma indústria cada vez mais mecanizada e pesada não só tem relação  com as mudanças econômicas, como também forja novos hábitos culturais. No novo ‘teatro urbano’, o uso e a exibição de certos produtos o a presença em determinados espaços funcionavam como elementos de status e distinção (…). (MELO, 2010, p. 9).

O entretenimento das ‘pessoas civilizadas’ ocorria, geralmente, em lugares reservados como as cortes, as assembleias, as operas e etc., já o entretimento do vulgo ocorriam em praças, tabernas, festivais, feiras e etc. Num primeiro momento havia certa ‘permissividade’ aos divertimentos dos pobres – inclusive, era sinal de riqueza e de generosidade o ato de patrocinar estes eventos. Porém, os incentivos foram minguando à medida que se percebia nestes eventos um impulso a organicidade popular – já que isto colocaria a sociedade, como um todo, em risco.  (MELO, 2010, p. 10). Preocupados com possíveis levantes a classe dominante passou a exercer uma política de controle social do tempo e assim, o tempo da natureza e dos rituais foram sendo substituídos pelo tempo das fabricas. Isso só foi possível porque os códigos de convivência foram, então, se adequando para a promoção de atitudes e pensamentos que mantivessem o equilíbrio desta nova ordem social. (MELO, 2010, p. 13).

Os locais onde os trabalhadores se encontravam para beber e se divertir tornaram se alvos já que eram “focos de preparação da resistência política, da conspiração” e, mesmo que “momentaneamente, quebravam a escassez cotidiana comum”. (MELO, 2010, p. 14). Além da ação jurídica e policial também havia a coerção religiosa – que pregava uma lógica de vida totalmente ascética e a noção de pecado era uma ferramenta usada em larga escala. Os metodistas, por exemplo, proibiam, as danças, as canções as artes e a literatura profana, bem como os jogos de cartas, o teatro e até mesmo as roupas coloridas e os adornos pessoais. São incentivadas as atividades do Bom Lazer como, por exemplo, a oração, a leitura bíblica, partir lenha, entre outros. Segundo MELO (2010, p. 19) esses ‘divertimentos adequados’ funcionavam como uma espécie de reconfigurações higienizadas das atividades comuns aos populares.

Devido à necessidade de impor a rotina fabril à campainha e o relógio, símbolos dessa nova ordenação dos tempos sociais,  transcendem o ambiente de trabalho e passam a compor a paisagem urbana – nasce à máxima, tempo é  dinheiro. (MELO, 2010, p. 15-16). Neste momento o tempo de lazer é elemento fundamental em diversas pautas sindicais e as fugas, as idas as tabernas e as feiras, se configuram como mecanismos de “resistência consciente ao desaparecimento de um antigo modo de vida” (costume), “á implementação da nova disciplina fabril, ás interferências nos comportamentos, inclusive nas dinâmicas de diversão.” (MELO, 2010, p. 19-20).

Assim, “para Thompson, a grande indústria moderna é um resultado (histórico) da luta de classes” (SILVA apud MELO, 2010, p. 21) e Os comportamentos, apontados como desviantes pelas classes dominantes, nada mais são do que o resultado da leitura dinâmica social realizada pelos trabalhadores.  Assim o que há é uma pluralidade de comportamentos, dentro de uma mesma cultura, que compreendem uma  complexa dinâmica social. Desta forma, o  lazer não pode ser tratado como um substrato do trabalho, e vice-versa,  já que “trabalho e diversão, indústria e lazer se gestaram mutuamente.”. (MELO, 2010, p. 22).

 

 

 

 

Considerações Finais

Ao perceber a classe operaria ainda em formação, por meio das experiências cotidianas dos  trabalhadores e não apenas dentro das relações econômicas e de trabalho o autor nos mostra que há resistência fora da linguagem articulada.

Isto deixa claro que a inércia não é uma característica dos trabalhadores – mesmo destes que ainda conseguem se perceber como operariado por não estarem impregnados pela ideologia capitalista. Assim, a resistência ao discurso dominante, se faz presente mesmo antes da formação do sentimento de classe. Inclusive, esta nova forma de analisar a luta de classes, inspirou diversos  trabalhos escritos a partir do referencial teórico social marxista. Sidney Chalhoub, por  exemplo, em Trabalho, Lar e Botequim – o Cotidiano dos Trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque, se vale deste arcabouço teórico para afirmar que o dia a dia dos trabalhadores da capital federal diz muito sobre as dinâmicas daquela sociedade. Aqui  elementos, como a ociosidade e o amasiamento, por exemplo, não devem ser entendidos como comportamentos desviantes, mas como mecanismos de resistência ao ideal de  sociedade que a classe dominante deseja construir.

Diante disto, é necessário ressaltar que importância da obra de Edward Palmer Thompson, para a historiografia, vai além das teses que apresenta. Assim,  o valor das contribuições  de Thompson é inquestionável – não só em relação aos resultados de suas pesquisas, mas também no que tange a questão metodológica – e Melo mostra-nos isto muito claramente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referencias Bibliográficas:

MELO, Victor Andrade. Lazer, Modernidade, Capitalismo: Um  Olhar a Partir da Obra de Edward Palmer Thompson. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: jan.-junh. 2010, vol. 23, nº 45, p. 5-26.

THOMPSON, E. P.  Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial. In:_____.  Costumes em Comum.  Trad. Rosaura Eichemberg.  Editora Schwarcz, São Paulo:        1998.p. 267 – 304.

História Econômica da América Latina 1870-1929: A Era das Exportações

    Texto acerca da História Econômica da América Latina 1870-1929, construído para composição da nota do primeiro bimestre da disciplina de História da América II do curso de Licenciatura Plena em História do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás – IFG,  entregue ao professor Valmir 23 de Dezembro de 2014.

Medidas, como, o fim da escravidão, o incentivo a imigração, a ocupação de áreas indígenas, o apoio à concentração de grandes latifúndios nas mãos de poucos (por meio da distribuição de títulos de propriedade) provocou a concentração de uma população pobre nos centros urbanos e limitou a possibilidade de aquisição de terras ao mercado, ou seja, o trabalho e a terra são, finalmente, mercadorias.

A agricultura e a extração de minerais continuam sendo a base na qual se sustentava a inserção da economia latino-americana na economia mundial e para  aumentar a produção se fez necessária à ampliação das terras incorporadas ao mercado. Um dos caminhos foi à ocupação de áreas, antes, inexploradas (e, consequentemente, a desapropriação dos indígenas) e o incentivo a concentração de grandes latifúndios nas mãos de poucos (por meio da distribuição de títulos de propriedade). Devido às dificuldades próprias dos primeiros passos de um Estado em edificação e dos ideais liberais a exploração dos recursos naturais se deu por meio de cocessões a empresas privadas – nacionais e internacionais.

Os incentivos fiscais as companhias internacionais garantiram mais do que capital estrangeiro, permitiram transferência internacional de tecnologia, não apenas ao setor exportador, mas sobre todo o conjunto de atividades que estruturavam o mercado interno – como bondes, ferrovias, eletricidade e bancos, por exemplo. A imigração trouxe pessoas que estavam familiarizadas com a rotina de uma civilização industrial e que possuíam conhecimentos técnicos, organizacionais  e administrativos. Desta forma, a acrescente exportação de produtos manufaturados geravam lucros que, em sua maior parte, iriam parar nos países onde estavam localizadas as matrizes das multinacionais. Além disto, ainda havia a dependência de exportação de matérias primas e as indústrias nacionais estavam, agora, amarradas à importações de bens de capital e de insumos industriais. Ainda sim, no período de 1875 a 1896 a economia mundial enfrentou uma desaceleração, mas, paradoxalmente, o comércio com a América latina viveu um avanço moderado. Entre os anos de 1898 e 1913 a economia mundial voltou a expandir e o comercio com a America latina  acompanha este ciclo de aceleração. Assim, apesar das várias oscilações do mercado internacional, os latino-americanos continuam a dedicar suas economias a exportação, porém, com a de 1929 este modelo deixa de ter sustentabilidade.

Ao final da chamada era das exportações estas sociedades possuíam uma classe trabalhadora com experiência de lutas sociais e de organização sindical. As classes médias urbanas procuravam estabelecer uma espécie de espaço público aberto aos debates sociopolíticos.  A  economia agrária era comandada por fazendas que possuíam características de um complexo empresariado industrial e, na maioria dos países, havia algumas empresas públicas.

Referências Bibliográficas:

CUEVA, Agustín. A luta de classes e a transformação da sociedade oligárquica. In: O desenvolvimento do capitalismo na América Latina. São Paulo: Global Editora, 1983 p. 134-151.

CUEVA, Agustín. O Estado oligárquico. In: O desenvolvimento do capitalismo na América Latina. São Paulo: Global Editora, 1983. p 121-134.

KAPLAN, Marcos. Formação do Estado Nacional na América Latina. Rio de Janeiro, Eldorado, 1982.